Risco de campanha apática: feriados e Copa do Mundo podem sufocar debates eleitorais em 2026
Embora ainda faltem nove meses para as eleições presidenciais e para as disputas pelas governadorias estaduais, já há um justificado temor de que os grandes temas nacionais passem ao largo ou não avancem além da superficialidade durante a campanha. As lideranças políticas parecem descuidar desse aspecto, o que pode eximi-las de prestar contas à sociedade que desejam representar.
Calendário civil como obstáculo ao espírito cívico
Contribuindo para distanciar o espírito cívico e as preocupações com a realidade nacional, vem o auspicioso presente do calendário civil, que promete seis feriados prolongados em 2026. Em um ano eleitoral, esses períodos de descanso são um convite à castração das grandes discussões, substituídas pelo lazer.
É uma época em que multidões de eleitores e candidatos correm para longe, porque o ócio se torna convidativo. Além dos feriados generosamente esticados, seguem-se o Carnaval e a Semana Santa, ocasiões tradicionalmente não propícias para assuntos sérios, que acabam ficando para depois.
Copa do Mundo como fator de distração prolongada
A prioridade da Copa do Mundo, mais duradoura neste ano, representa outro desafio significativo. O fato é que podemos acabar sem tempo e vagar para debates proveitosos, nem poder mergulhar fundo no que vão propor os candidatos, para melhor selecioná-los.
Com prazos tão escassos, vem o perigo de julgamentos descuidados por parte do eleitorado. Tomara que se esvaziem essas preocupações, e os brasileiros, mesmo sem abrir mão dos prazeres, entrem com fé e coragem na campanha.
Crise moral sem precedentes exige conversa profunda
Quando se arrisca dizer "mais que nunca" é porque o Brasil – não há quem possa contestar – está asfixiado numa crise moral sem precedentes. É preciso conversar muito sobre isso.
O que se sente e se vê é que as coisas não têm mais ordem; afundaram na desordem. A Justiça e suas leis naufragaram perigosamente, e nelas, nós, à deriva, já não temos como aportar as últimas esperanças.
Corrupção escancarada e descrença generalizada
A prática da corrupção e o roubo escancarado dos negócios públicos e privados chegam a um ponto em que fica sepultado o mínimo de pudor. Como fato mais recente, o escândalo do banco Master, envolvendo gente dos três poderes, ministros agentes ou coniventes, induz a acreditar que já não há inocentes nesse mar de dejetos em que se misturam bancos, tribunais, política e finanças fraudulentas.
Como permitir que tamanha tragédia passe imperturbável pela campanha eleitoral? Pois corremos esse perigo, não só por graça daqueles fatos já analisados, mas porque uma parte dos brasileiros prefere achar que o país não tem jeito. Melhor deixar pra lá. O Brasil sepultado em cova rasa seria o fim de todos os fins.
Relações externas como tema atraente e desafiador
Insistindo um pouco mais na temeridade da apatia, quase coletiva, sobre os temas político-eleitorais deste ano, uma outra razão causa estranheza. Em nenhuma outra campanha sucessória, nem mesmo em tempo de grandes conflitos, as relações externas mostraram-se tão atraentes para os palanques.
Hoje, a opinião pública tem como acompanhar tudo que acontece além das fronteiras, pode analisar, opinar e julgar. Seria quase bizarro que o eleitor negasse espaço a essa questão, cada vez mais desafiadora, em boa parte devido ao atletismo das incursões do presidente Trump mundo afora.
O chefe americano dá nítida impressão de que, ao despertar, manhã cedo, indaga a si mesmo sobre a vida de quem pretende infernizar naquele novo dia, depois da Venezuela, Canadá, Colômbia, México, China, Irã e Groenlândia. Qual o próximo, depois do breakfast?