O Brasil está condenado a ser um país de corruptos? Essa pergunta ecoa diariamente na mente dos brasileiros, que sentem a corrupção como uma doença incurável. No entanto, antes de desistir, é crucial avaliar se realmente há tanta corrupção no país e, se sim, identificar os nichos onde ela prospera e as possíveis soluções para combatê-la. Será que os honestos seriam capazes de virar esse jogo desleal?
Há muita corrupção no Brasil?
Embora seja impossível medir a corrupção com precisão, pois o sigilo é sua garantia de sucesso, existem várias formas de avaliar a situação, e o quadro é alarmante. Pesquisas indicam que 84% dos brasileiros acreditam que há abundante corrupção no país, e 75% consideram que ela está concentrada em ações de membros dos governos. Nos municípios, o percentual é menor (45,9%), mas ainda elevado.
A sensação de crescimento da corrupção é reforçada pelas notícias diárias e pelos dados da Transparência Internacional. Em 2024, o Brasil caiu para a 107ª posição entre 180 países, sua pior marca, com uma nota de 34/100 pontos, abaixo dos 43/100 pontos registrados em 2012 e 2014. Esse desempenho coloca o Brasil ao lado de Sri Lanka, Argélia e Bósnia e Herzegovina.
Fatos históricos também confirmam a piora. Em 1993, o ministro da Fazenda Eliseu Resende foi demitido por um gasto de US$ 830 em hospedagem em Nova York pago por uma empresa. Esse valor é ínfimo perto dos bilhões desviados na Lava Jato e no caso Master, mas mostra a importância das regras e princípios. Bruno Carazza aponta que, em 1990, as empreiteiras condenadas na Lava Jato já financiavam campanhas, como a de Collor, com a Odebrecht contribuindo com US$ 3,2 milhões. Entre 2006 e 2014, a mesma Odebrecht admitiu contribuições mil vezes maiores, US$ 3,4 bilhões. Em 2017, foram encontrados R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um apartamento de Geddel Vieira, ex-deputado e ex-ministro.
Focos de corrupção nos Três Poderes
O poder Legislativo continua sendo um dos principais focos de corrupção. A substituição do financiamento privado pelo público nas campanhas eleitorais (R$ 5 bilhões em 2026) não reduziu a corrupção. Pelo contrário, a falta de transparência na prestação de contas dos partidos favorece campanhas milionárias financiadas ilegalmente, inclusive com dinheiro do crime organizado. Em várias regiões, eleitores sofrem assédio de candidatos que compram votos com promessas de vagas em escolas, hospitais ou materiais de reforma. O crescimento contínuo das emendas parlamentares (cerca de R$ 61 bilhões em 2026) e sua opacidade também favorecem a corrupção.
Outra zona de risco é a "grande corrupção" entre membros do Executivo e empresários fornecedores, especialmente em privatizações, licitações e concessões. Sérgio Machado, ex-senador e presidente da Transpetro, revelou em colaboração premiada que a propina seguia uma tabela: 3% na área federal, 5% a 10% na estadual e 10% a 30% na municipal. Políticos frequentemente participam desses conluios.
No Judiciário, a venda de sentenças por magistrados tem aumentado, e as investigações sobre possível envolvimento de ministros do STF com o caso Master acendem um alerta máximo sobre a expansão da corrupção, solapando a credibilidade da Justiça.
Pequena corrupção e reação popular
Se a "grande corrupção" é grave, a "pequena corrupção" (suborno para acesso a serviços públicos) é a mais baixa da América Latina, segundo o Global Corruption Barometer. A maioria da população, que não pratica corrupção e vê seus impostos desviados, revolta-se com a rapina de políticos, magistrados e empresários e apoia esforços para mudar a situação.
A corrupção funciona como um mecanismo concentrador de renda, roubando dos pobres para entregar aos "espertos". Em países com alta corrupção, as regras do jogo defendem interesses de grupos, não o bem-estar da população, reduzindo o crescimento econômico, perpetuando desigualdade e gerando desânimo.
É possível mudar?
Sim, e há três dimensões a serem atendidas. Primeiro, as regras do jogo devem ser escritas para o bem-estar da maioria. Segundo, elas precisam valer para todos, quebrando o tabu de que "quem manda não obedece" (Roberto DaMatta). Terceiro, organizações robustas da sociedade civil são a defesa natural contra a corrupção e garantem o vigor das instituições democráticas.
Além de bem escritas, as regras precisam ser cumpridas, e o Judiciário tem papel crucial. Quando é eficiente e independente, as regras são reforçadas e incorporadas à cultura. Quando falha, grassa a impunidade e a "lei do quem paga mais". A corrupção não decorre de pessoas inerentemente corruptas, mas de instituições que defendem interesses particulares em vez do bem comum.



