2026: Eleições no Brasil são teste decisivo para a democracia e instituições
2026: Eleições são teste decisivo para democracia no Brasil

2026: O ano que definirá o futuro da democracia brasileira

O Brasil se aproxima de um momento decisivo em sua história democrática. As eleições de 2026 não representam apenas mais um pleito eleitoral, mas sim um ponto de inflexão qualitativo onde corrupção, desinformação e polarização deixam de ser disfunções episódicas para se tornarem métodos consolidados de poder. Este cenário exige uma reflexão profunda sobre o que restará das instituições após o processo eleitoral.

Um alerta que vem de dentro e de fora

O Relatório de Riscos Globais 2026, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, já aponta a desinformação, a erosão da confiança institucional e a polarização social como riscos centrais de curto prazo para democracias em todo o mundo. No contexto brasileiro, onde as eleições são disputadas sob alta tensão emocional e institucional, esses riscos se multiplicam exponencialmente. A questão central não se resume a quem vencerá as eleições, mas sim ao que sobrará do arcabouço democrático depois delas.

Quando a eleição se transforma em salvo-conduto

Em teoria, eleições deveriam fortalecer a democracia. No Brasil, com frequência preocupante, elas fazem exatamente o oposto: expõem fragilidades estruturais. Em anos eleitorais, práticas que seriam inaceitáveis em tempos considerados "normais" passam a ser relativizadas com alarmante naturalidade. Nomeações políticas em órgãos técnicos, pressões informais sobre agências reguladoras, ataques preventivos a tribunais e órgãos de controle tornam-se parte do jogo político.

O risco em 2026 é particularmente grave porque a polarização transcende projetos políticos distintos para se transformar em uma disputa existencial. Para muitos atores políticos, perder a eleição equivale a desaparecer politicamente ou, em casos extremos, a responder judicialmente. Nesse cenário de vale-tudo institucional, até mesmo a deslegitimação previamente das regras do jogo democrático se torna estratégia.

A desinformação como infraestrutura política industrializada

No Brasil contemporâneo, a desinformação deixou de ser mero ruído de fundo para se tornar verdadeira infraestrutura política. Narrativas falsas ou deliberadamente distorcidas sobre urnas eletrônicas, tribunais, imprensa, política monetária e órgãos de fiscalização não surgem espontaneamente. Elas são produzidas, testadas, segmentadas, distribuídas e monetizadas com método científico — e, cada vez mais, com o apoio decisivo de ferramentas de inteligência artificial.

A IA reduziu drasticamente o custo e o tempo de produção da mentira política. Atualmente, é possível:

  • Fabricar vídeos falsos com aparência realista convincente
  • Clonar vozes de autoridades e personalidades públicas
  • Automatizar exércitos de perfis falsos nas redes sociais
  • Adaptar mensagens sob medida para públicos específicos, explorando medos, crenças e ressentimentos

Quando a população é sistematicamente levada a acreditar que o Banco Central "trabalha contra o povo", que o Judiciário "age por interesses ocultos" ou que órgãos de controle "perseguem patriotas", cria-se o ambiente ideal para que a corrupção floresça. Afinal, se ninguém é confiável, então ninguém é responsabilizável.

O golpe do contexto e a aceleração pela IA

Um truque particularmente perigoso nesse ecossistema de desinformação é o chamado "golpe do contexto". Vídeos reais, mas editados em trechos de 10 a 15 segundos, circulam como prova de algo que jamais foi dito daquela forma. Falas são recortadas cirurgicamente para produzir indignação instantânea, enquanto o contexto completo desaparece deliberadamente.

Em outros casos, notícias verdadeiras publicadas há cinco ou dez anos ressurgem como se fossem fatos do dia, explorando a memória curta do ambiente digital. A inteligência artificial amplifica esse golpe ao acelerar exponencialmente a reciclagem e reembalagem do conteúdo. Datas são ocultadas, legendas são alteradas, imagens são recombinadas. A verdade não é negada frontalmente — ela é deslocada, rearranjada, colocada fora de tempo e de sentido.

Corrupção sistêmica: quando a exceção vira regra

O discurso confortável é tratar a corrupção como desvio individual. O discurso honesto exige reconhecer que ela se torna sistêmica quando encontra três condições fundamentais:

  1. Instituições fragilizadas e capturadas politicamente
  2. Fiscalização desacreditada e desmoralizada
  3. Opinião pública confusa e desorientada

O Brasil, às vésperas de 2026, reúne perigosamente esses três elementos. Casos recentes envolvendo instituições financeiras, fundos de investimento, estatais e grandes contratos públicos demonstram como falhas de governança raramente são isoladas. Elas prosperam quando há captura política efetiva, quando a supervisão é leniente e quando denúncias são desqualificadas como "fake news" antes mesmo de serem investigadas adequadamente.

O contexto global que agrava os riscos nacionais

Como se não bastassem os desafios internos, o mundo vive uma fase preocupante de retração do multilateralismo. A cooperação internacional no combate a crimes financeiros, lavagem de dinheiro e evasão fiscal está mais difícil do que em décadas anteriores. Grandes potências priorizam crescentemente seus próprios interesses nacionais, e regras comuns perdem força progressivamente.

Isso significa menos troca de informações entre países, menos coordenação regulatória transnacional e mais espaço para esquemas sofisticados que atravessam fronteiras com impunidade. Países com instituições pressionadas internamente — como o Brasil em ano eleitoral — tornam-se alvos particularmente fáceis para esses esquemas.

O verdadeiro risco democrático de 2026

O maior perigo das eleições de 2026 não reside na alternância de poder em si — democracias maduras lidam com isso regularmente. O risco real é a normalização da corrosão institucional como estratégia eleitoral legítima. É transformar ataques sistemáticos às instituições em capital político negociável. É fazer da suspeita permanente um método de governo aceitável.

Quando essa normalização ocorre, o prejuízo não aparece imediatamente nos noticiários. Ele surge depois, de forma insidiosa, na forma de crescimento econômico menor, inflação mais persistente, serviços públicos mais precários e uma sensação difusa na população de que "nada funciona como deveria". E quando a sociedade chega coletivamente a essa conclusão desoladora, a democracia já está seriamente ferida, muitas vezes de maneira irreversível.

Um teste decisivo de maturidade democrática

O Brasil precisa decidir conscientemente se 2026 será um rito democrático legítimo ou um teste de resistência institucional extremo. Essa decisão exige imprensa vigilante e independente, sociedade civil ativa e organizada, instituições firmes em seus princípios e, sobretudo, cidadãos dispostos a desconfiar não das instituições democráticas em si, mas daqueles que tentam destruí-las sistematicamente em nome do povo.

A democracia não morre tipicamente em um golpe espetacular e televisivo. Ela morre silenciosamente quando a corrupção se disfarça de discurso moral elevado, quando a mentira vira ferramenta política legítima e quando a fiscalização é tratada publicamente como traição à pátria. Em 2026, o Brasil não escolherá apenas um novo governo. Escolherá, fundamentalmente, se ainda acredita que regras e instituições importam — ou se aceita viver em um país onde o barulho vence a lei, e a desinformação governa no lugar da democracia.