Vítima de abuso por padre busca justiça após 26 anos; caso vai a julgamento no STJ
Quase três décadas se passaram, mas as marcas permanecem profundas. Um homem de 34 anos, Maikon Daniel dos Reis, ainda luta por justiça e tenta reconstruir sua vida após denunciar ter sido vítima de abuso sexual cometido por um padre no ano 2000, em Cerqueira César, interior de São Paulo. Na época do crime, a vítima tinha apenas nove anos de idade.
O longo caminho judicial
Maikon ingressou com uma ação judicial contra Antonio Fábio Rodrigues dos Santos Zamberlan, de 65 anos, em 2018. O religioso é acusado do crime, e o processo agora tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), com julgamento previsto para o dia 13 de fevereiro. A espera por uma decisão final se arrasta por anos, enquanto a vítima enfrenta as consequências psicológicas e sociais do trauma.
Em entrevista ao g1, Maikon relatou que o abuso ocorreu quando ele ainda era criança. Segundo seu depoimento, a visita à igreja católica aconteceu após um convite de dois amigos, já que, até então, ele não seguia nenhuma religião. O crime teria ocorrido após o padre convidá-lo, junto com os amigos, para irem até um sítio.
"Aceitei o convite sem desconfiar de nada, mas percebi comportamentos estranhos. Em determinado momento, fui chamado para um quarto. Fiquei assustado e disse que precisava ir embora", contou Maikon, descrevendo o episódio que mudou sua vida para sempre.
Consequências devastadoras e represálias
De acordo com o relato da vítima, o abuso foi contado à mãe assim que ele voltou para casa. A partir daí, uma série de eventos traumáticos se desenrolou. "Depois que minha mãe abriu o boletim de ocorrência, tivemos que ir embora da cidade. Havia muitos fanáticos religiosos e recebemos muitas ameaças. De Cerqueira César, nos mudamos para Piraju, Sarutaiá e Avaré", revelou Maikon.
As represálias não pararam por aí. Ele relata que houve a divulgação de sua imagem e da mãe em um jornal local, além de episódios de bullying na escola. As consequências afetaram toda a família de maneira profunda. Já morando em Sarutaiá, Maikon ainda era reconhecido por moradores e chegou a sofrer intimidações, incluindo o arremesso de uma pedra contra a janela do quarto, acompanhada de uma carta com ameaças de morte.
"Eu luto para sair do alcoolismo e faço tratamento até hoje. A igreja foi absolvida de qualquer responsabilidade e, hoje, são 26 anos de luta contra um episódio totalmente traumático. Chegaram a procurar minha mãe para suborná-la", alega a vítima, destacando o impacto duradouro do crime em sua saúde mental e bem-estar.
Detalhes do processo e posicionamentos
O g1 teve acesso ao processo que tramita no Superior Tribunal de Justiça. Em decisão assinada pela ministra Maria Isabel Gallotti, o acórdão afastou a responsabilidade da Arquidiocese de Botucatu, ao entender que o crime não teria relação com o exercício da função religiosa. No documento, a ministra afirma que a vítima não frequentava a igreja católica, não era fiel da paróquia e sequer sabia que o agressor era sacerdote no momento em que aceitou o convite para ir ao sítio, o que foi considerado um ponto incontroverso nos autos.
Segundo Maikon, ele não mantém contato com o padre desde a última decisão judicial. Com o julgamento marcado, ele espera que o desfecho do processo traga alívio após anos de sofrimento e afastamento da família.
Em nota, a Arquidiocese de Botucatu diz que, ao tomar conhecimento dos fatos e figurar como parte no processo judicial, apresentou sua defesa e adotou as medidas cabíveis. A organização foi questionada, mas não respondeu se Zamberlan segue como sacerdote. Ainda conforme a nota, a arquidiocese afirma que pretende se manifestar somente após o resultado do julgamento do padre.
Via telefone, o Santuário de Santa Teresinha do Menino Jesus, onde Zamberlan atuava em Cerqueira César, informou que ele não atua mais como sacerdote no local há 18 anos e, desde então, nunca mais foi visto na região. Já o STJ e o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) disseram que o caso segue sob segredo de Justiça e, por isso, não podem se manifestar.
O g1 entrou em contato com a Nunciatura Apostólica, representante do Vaticano no Brasil, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. A equipe também tenta contato com a defesa de Antônio, buscando esclarecimentos adicionais sobre o caso.