Visibilidade Trans: Resistência e Luta por Dignidade em Meio à Violência no Brasil
Visibilidade Trans: Luta por Dignidade e Envelhecimento no Brasil

Dia da Visibilidade Trans: Celebração e Luta por Dignidade no Brasil

Nesta quinta-feira, 29 de março, é celebrado o Dia da Visibilidade Trans, uma data que busca ampliar a conscientização sobre os direitos e desafios enfrentados por pessoas transgênero no Brasil. No entanto, a celebração ocorre em um cenário marcado por estatísticas alarmantes. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a expectativa de vida de pessoas trans no país é de apenas 35 anos, um número que reflete décadas de violência, exclusão e preconceito estrutural.

Histórias de Resistência: Jhammys Bryan e Shirley Costa

Apesar desse contexto desafiador, histórias como as de Jhammys Bryan, de 51 anos, e Shirley Costa, de 64 anos, na Paraíba, demonstram que é possível atravessar barreiras e envelhecer com dignidade, ainda que isso exija uma luta permanente. Em entrevistas à TV Cabo Branco, ambas relataram trajetórias marcadas por violência, exclusão social e resistência, em um país que, infelizmente, segue liderando os índices globais de assassinatos de pessoas trans.

Jhammys Bryan: A Cirurgia como Renascimento

Jhammys Bryan, um homem trans de 51 anos, natural de Natal, no Rio Grande do Norte, vive atualmente em João Pessoa, Paraíba, onde trabalha como reciclador, sobrevivendo da coleta de materiais recicláveis. Sua transferência para a Paraíba foi viabilizada por um pedido de Jacqueline Brasil, uma histórica ativista trans e travesti do Rio Grande do Norte, que faleceu em junho de 2025 devido a um câncer. Antes de morrer, Jacqueline solicitou a Sérgio Araújo, coordenador do Ambulatório TT/PB há uma década, que ajudasse Jhammys a acessar serviços de saúde mais estruturados em João Pessoa.

Foi nesse ambulatório que Jhammys conseguiu acesso à cirurgia de mastectomia, prevista para março de 2026. Sem condições financeiras para custear o tratamento, ele recebeu hormônios doados pelo serviço de saúde. Para Jhammys, a cirurgia representa muito mais do que um simples procedimento médico; é descrita como um verdadeiro renascimento após anos de sofrimento e luta.

"Além de ser homem trans, eu sou preto. Então eu carrego comigo dois preconceitos horríveis. Comecei a minha hormonioterapia muito tardiamente, comecei aos 45 anos em 2021. E dali começou a minha jornada. O tempo todo sonhando com a minha cirurgia, me vendo com o meu peitoral, me vendo liberto", afirmou Jhammys em seu relato emocionante.

Shirley Costa: Envelhecer como Ato Político

Shirley Costa, com 64 anos, representa uma geração que conseguiu envelhecer em um contexto onde, para muitas pessoas trans, isso parecia impossível. Yalorixá, ativista e moradora de Pilar, na Paraíba, ela construiu sua trajetória em meio a um histórico de marginalização e negação de futuros para a população trans. Sua infância e juventude foram marcadas por violência, discriminação, exclusão escolar e intolerância religiosa.

Ao longo da vida, Shirley trabalhou como empregada doméstica e encontrou na fé e na militância formas poderosas de resistência. Ela se tornou a primeira vereadora trans da Paraíba, na cidade de Pilar, deixando um legado político e simbólico significativo. Para ela, envelhecer sendo trans no Brasil é, por si só, um ato político de resistência, que reafirma o direito de existir em uma sociedade que frequentemente nega dignidade à população trans.

"As mulheres trans merecem terminar os anos de vida delas com dignidade. Que seja na saúde, que seja na aposentadoria. Isso é muito importante para todas", destacou Shirley, enfatizando a necessidade de políticas públicas que garantam direitos básicos.

Violência Persistente: Dados Alarmantes da Antra

Apesar das inspiradoras histórias de resistência, os dados revelam um cenário de extrema violência que persiste no Brasil. Segundo o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), ao menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no país em 2025. Esse número mantém o Brasil, pelo 17º ano consecutivo, como o mais perigoso do mundo para essa população.

Na Paraíba, foram registrados quatro casos de assassinatos de pessoas trans em 2025. O perfil das vítimas é majoritariamente composto por jovens trans negras, empobrecidas e nordestinas, mortas em espaços públicos. A Antra alerta para o alto risco de subnotificação, já que o levantamento é realizado com base em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais, devido à ausência de dados oficiais do Estado brasileiro.

Acesso à Saúde: Condição Fundamental para Envelhecer com Dignidade

Especialistas e ativistas apontam que garantir o acesso contínuo e qualificado à saúde é fundamental para que pessoas trans possam envelhecer com dignidade. Em 2025, o Ambulatório TT Fernanda Benvenutty, na Paraíba, acompanhou 1.725 usuários e realizou mais de 6 mil atendimentos, além de cirurgias essenciais para a afirmação de gênero.

Esses números reforçam o papel crucial do Sistema Único de Saúde (SUS) como um dos principais instrumentos de garantia de direitos para a população trans no Brasil. A disponibilidade de serviços especializados, como hormonioterapia e cirurgias de redesignação sexual, pode significar a diferença entre a vida e a morte, além de promover qualidade de vida e inclusão social.

O Dia da Visibilidade Trans serve não apenas para celebrar as conquistas e resistências, mas também para lembrar a sociedade e os governantes da urgência em combater a violência e ampliar políticas públicas que assegurem direitos básicos, como saúde, educação e trabalho digno para todas as pessoas trans.