ONU investiga confissões forçadas no Irã e pede fim da repressão violenta
ONU investiga confissões forçadas e repressão no Irã

ONU abre investigação sobre confissões forçadas e repressão no Irã

A Organização das Nações Unidas (ONU) iniciou uma investigação formal sobre as práticas de repressão no Irã, com foco especial nas confissões forçadas televisionadas que têm sido utilizadas como ferramenta de intimidação contra dissidentes. As autoridades iranianas estão sendo acusadas de coagir detidos a admitir crimes que não cometeram, em uma campanha que já resultou em milhares de mortes nas ruas durante os protestos contra o regime teocrático.

Confissões sob coerção: números alarmantes e táticas de tortura

Segundo o grupo de direitos humanos Human Rights Activists News Agency (HRANA), pelo menos 240 confissões forçadas foram transmitidas pela televisão estatal iraniana nas últimas semanas, um volume considerado sem precedentes na história recente do país. Essas aparições ocorrem após a detenção de milhares de manifestantes, que são interrogados por um entrevistador e obrigados a confessar supostos crimes.

Entre as acusações mais comuns estão:

  • Agressão a integrantes das forças de segurança
  • Aceitação de dinheiro de elementos monarquistas ou inimigos do Irã
  • Compartilhamento de imagens com organismos proibidos ou veículos de imprensa
  • Seguir contas de opositores nas redes sociais

Ativistas denunciam que essas confissões são obtidas por meio de tortura psicológica e física, constituindo uma tática já utilizada no passado contra detidos que, em muitos casos, acabaram executados. A Anistia Internacional classifica o material como vídeos propagandísticos e relata que as autoridades obrigam os detidos a ler declarações pré-escritas.

Narrativa estatal e dissuasão de dissidentes

A relatora especial da ONU para direitos humanos no Irã, Mai Sato, alertou ao Conselho de Direitos Humanos que as confissões falsas buscam reforçar a narrativa do Estado, apresentando manifestantes pacíficos como criminosos perigosos. Roya Boroumand, diretora do Centro Abdorrahman Boroumand para os Direitos Humanos no Irã, explica que essas transmissões cumprem várias funções em regimes totalitários:

  1. Fabricar legitimidade política
  2. Criar uma narrativa oficial falsa
  3. Dissuadir a dissidência através do medo

O temido chefe do Judiciário iraniano, Gholam-Hossein Mohseni-Eje'i, chegou a interrogar pessoalmente alguns detidos em sessões televisionadas, demonstrando o envolvimento direto das altas esferas do poder.

Protestos, mortes e detenções em massa

As manifestações começaram em dezembro por reivindicações econômicas, mas rapidamente se transformaram em um movimento de massa contra a República Islâmica. A partir de 8 de janeiro, quando o governo suspendeu a internet, os protestos de rua ganharam proporções ainda maiores. A repressão violenta resultou em:

  • 6.126 mortes confirmadas (incluindo 5.777 manifestantes, 86 menores e 49 transeuntes)
  • Mais de 41.800 pessoas detidas
  • Investigação de mais de 17.000 possíveis mortes adicionais

As autoridades iranianas atribuem as mobilizações a inimigos do país, como Israel e Estados Unidos, mas os números revelam uma crise humanitária de grandes proporções.

Casos emblemáticos e risco de pena de morte

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram situações chocantes, como o interrogatório de Shervin Bagherian, um jovem de 18 anos informado de que enfrenta acusações que podem levar à pena de morte. Em outro caso amplamente compartilhado, um homem aparece admitindo ter enviado imagens dos protestos ao ex-presidente americano Donald Trump.

Essas transmissões já foram usadas no passado como prelúdio para execuções, inclusive envolvendo estrangeiros. A francesa Cecile Kohler foi exibida na televisão iraniana em outubro de 2022 fazendo uma confissão forçada, segundo ativistas, antes de ser condenada por espionagem - acusação veementemente rejeitada por sua família. Embora libertada no fim do ano passado junto com o compatriota Jacques Paris, ela ainda não conseguiu deixar o Irã.

Humilhação pública e destruição de credibilidade

O Centro para os Direitos Humanos no Irã alerta que essas confissões falsas frequentemente servem como única prova para condenações, inclusive em casos capitais onde a pena de morte pode ser aplicada. Roya Boroumand destaca que, ao forçar dissidentes a confessar publicamente conluios com potências estrangeiras, o Estado busca legitimar sua repressão sob o argumento de proteger a segurança nacional.

Essas transmissões também buscam humilhar e destruir a credibilidade dos dissidentes, afirmou Boroumand, ao mesmo tempo em que lembram ao público o alto custo de desafiar o Estado. A prática não apenas viola direitos humanos básicos, mas também cria um clima de terror que silencia vozes dissidentes e perpetua o controle autoritário.