Minas Gerais lidera assassinatos de pessoas trans em 2025, com oito mortes registradas
O estado de Minas Gerais registrou oito assassinatos de pessoas trans e travestis no ano de 2025, dividindo a primeira posição no ranking nacional com o Ceará, que também contabilizou oito homicídios. Os dados foram divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) nesta semana, em um relatório que analisa a violência contra essa população em todo o Brasil.
Queda nos números não reflete realidade, alerta Antra
No país inteiro, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans em 2025, o que representa uma queda de 34% em relação ao ano anterior, quando houve 122 registros. Em Minas Gerais, a redução foi de 33%. No entanto, o relatório da Antra adverte que essa diminuição nos indicadores não reflete necessariamente uma melhora na realidade.
Segundo a associação, fatores como o enfraquecimento das políticas de identificação e checagem das mortes violentas de pessoas trans, além das subnotificações, contribuem para distorcer os números. "Se a vítima sente que não haverá punição ou que será maltratada ao denunciar, ela deixa de registrar a ocorrência", destaca um trecho do dossiê.
O documento ainda aponta que muitos crimes de ódio passaram a ser registrados como ocorrências comuns, como latrocínio, homicídio e lesão corporal, sem o reconhecimento da motivação por LGBTfobia. Para a Antra, os dados de Minas Gerais e Ceará, embora trágicos, indicam "ao menos um sistema minimamente capaz de identificar e dar visibilidade à violência que vitima essa população".
Perfil das vítimas e cenário de violência
Conforme o dossiê da Antra, em 54% dos assassinatos com dados de faixa etária disponível, as vítimas tinham entre 18 e 29 anos. Em 77% dos casos, elas tinham menos de 35 anos. "O Brasil é um território onde a longevidade é um privilégio negado à maioria da população trans", afirma um trecho do relatório.
A grande maioria das vítimas (77) eram travestis ou mulheres trans, enquanto três eram homens trans. Além disso, a maioria dos homicídios (62,5%) ocorreu em espaços públicos, evidenciando a exposição e vulnerabilidade dessa população.
Casos emblemáticos em Belo Horizonte
Dois casos ocorridos em Belo Horizonte ilustram a violência enfrentada por pessoas trans na capital mineira. Alice Martins Alves, de 33 anos, mulher trans, morreu em novembro de 2025, dias depois de ser espancada em uma rua da Savassi, na Região Centro-Sul. Os suspeitos são dois garçons de um bar do bairro, que teriam perseguido a vítima por ela ter deixado de pagar uma conta de R$ 22.
Christina Maciel Oliveira, de 45 anos, também foi morta no meio da rua, à luz do dia, em Belo Horizonte. O crime ocorreu no dia 20 de outubro, na Região de Venda Nova, e o suspeito era namorado da mulher.
Respostas do poder público e ações de visibilidade
A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) afirmou, em nota, que o governo de Minas Gerais tem compromisso "com a promoção e a defesa dos direitos da população LGBTQIA+". A pasta destacou capacitações de agentes sobre esses direitos e a inclusão de campos como "nome social", "orientação sexual" e "identidade de gênero" no Registro de Eventos de Defesa Social (Reds).
A Prefeitura de Belo Horizonte, por sua vez, afirmou que atua de forma contínua no enfrentamento à LGBTfobia, com equipamentos como o Centro de Referência LGBT e a Casa de Acolhimento LGBT. "A redução efetiva dos crimes de LGBTfobia exige um compromisso coletivo e permanente da sociedade", declarou o município.
Nesta quinta-feira (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, a Prefeitura de BH realizou um mutirão para fortalecer o acesso de pessoas trans, travestis e não binárias a políticas públicas. A programação incluiu atendimento para retificação de nome e gênero, orientação jurídica, feira de economia solidária e serviços de saúde, no Centro de Referência LGBT.
Ranking de assassinatos por estado em 2025
Os estados com mais assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025, segundo a Antra, foram:
- Minas Gerais – 8
- Ceará – 8
- Bahia – 7
- Pernambuco – 7
- Goiás – 5
- Maranhão – 5
- Pará – 5
- Paraná – 4
- Rio Grande do Norte – 4
- São Paulo – 4
- Mato Grosso – 3
- Rio de Janeiro – 3
- Alagoas – 2
- Distrito Federal – 2
- Espírito Santo – 2
- Mato Grosso do Sul – 2
- Amazonas – 1
- Amapá – 1
- Rio Grande do Sul – 1
- Santa Catarina – 1
- Sergipe – 1
- Acre – 0
- Piauí – 0
- Rondônia – 0
- Roraima – 0
- Tocantins – 0
Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas efetivas e de uma sociedade mais engajada na proteção e visibilidade da população trans, especialmente em um dia marcado por reflexões e ações como o Dia Nacional da Visibilidade Trans.