Escrevente trans sofre transfobia em Fórum de Olímpia (SP) e busca justiça após denúncia do MP
Escrevente trans vítima de transfobia em Fórum de Olímpia (SP)

Escrevente trans enfrenta transfobia em ambiente de trabalho no Fórum de Olímpia (SP)

Um escrevente de 33 anos, que passou por transição de gênero, tornou-se vítima de falas e atitudes discriminatórias por parte de um servidor público no Fórum de Olímpia, no interior de São Paulo. O caso, que ocorreu entre 2018 e 2025, foi denunciado pelo Ministério Público (MP) em 14 de janeiro deste ano, com a promotora Sylvia Luiza Prestes Ribeiro à frente da ação. A vítima, que não será identificada, relata que o período foi o pior de sua vida profissional e pessoal, levando-a a buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Detalhes do caso e impactos na vítima

Conforme a denúncia, o suspeito e a vítima trabalharam juntos durante sete anos, período em que o escrevente completou sua transição de gênero, ocorrida entre 2014 e 2016. O servidor público, que atuava como chefe do Setor de Execuções Fiscais do Tribunal de Justiça na cidade, teria feito comentários ofensivos, como "Era menina, daí saiu de férias e voltou homem!". Além disso, a vítima lembra de situações humilhantes, como ser apontado para o banheiro feminino e enfrentar perguntas invasivas sobre sua vida sexual.

O escrevente descreveu a experiência como traumática, afirmando: "Trabalhar com ele foi, com toda certeza, o pior período da minha carreira. A sensação diária era de que eu estava indo para a guerra e precisava estar vigilante todo o tempo". Os episódios levaram a um esgotamento mental, com agravamento de condições pré-existentes, como fibromialgia, além de insônia e taquicardia. A vítima chegou a considerar atentar contra a própria vida, destacando a gravidade do impacto psicológico.

Respostas jurídicas e defesas

O MP classificou a denúncia como racismo, uma vez que o Brasil ainda não possui legislação específica para o crime de transfobia. A defesa do suspeito, representada pelo advogado Paulo Alberto Penariol, nega veementemente qualquer conduta discriminatória, ressaltando os mais de 20 anos de carreira do cliente com dedicação e integridade. Por outro lado, o advogado da vítima, Juan Siqueira, enfatiza a ironia do caso ocorrer dentro de um Fórum, local simbólico de justiça, e destaca a necessidade de responsabilização.

Após os incidentes, o escrevente optou por trabalhar em home office por aproximadamente oito meses e tentou conciliações sem sucesso. Posteriormente, conseguiu uma transferência para outro cartório na comarca de Olímpia, onde relata um recomeço positivo, sendo respeitado pelos colegas. No entanto, ele mantém a esperança na Justiça, expressando: "Meu maior desejo, sem dúvidas, é que ele [suspeito] seja penalizado e responsabilizado pelas coisas que fez".

Contexto social e implicações

Este caso ilustra os desafios enfrentados por pessoas trans em ambientes de trabalho, mesmo em instituições públicas. A falta de uma lei específica para transfobia no Brasil complica a persecução penal, levando a enquadramentos alternativos, como o racismo. A situação também evidencia a importância do suporte à saúde mental para vítimas de discriminação, com o escrevente destacando a necessidade de acompanhamento profissional para superar os traumas.

Em resumo, o episódio no Fórum de Olímpia serve como um alerta para a necessidade de maior conscientização e medidas efetivas contra a transfobia, tanto no âmbito jurídico quanto no cotidiano laboral. A busca por justiça pela vítima reflete um anseio por mudanças sociais que garantam respeito e dignidade a todos, independentemente de identidade de gênero.