Carta Aberta acusa Big Brother Brasil de flertar com tortura psicológica
Uma Carta Aberta enviada à TV Globo por representantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos acusa o programa Big Brother Brasil de flertar com o flagelo psicológico e práticas semelhantes à tortura utilizada durante a ditadura civil-militar brasileira. O documento, assinado por integrantes da comissão vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, expressa profunda inquietação ética com a dinâmica conhecida como Quarto Branco.
Semelhanças aterradoras com práticas da ditadura
Os signatários da carta afirmam que o que se assistiu recentemente no BBB ultrapassou as fronteiras do jogo e do entretenimento, ingressando em um terreno perigoso. Eles destacam que métodos como privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial e perda da noção de tempo guardam semelhança aterradora com práticas de tortura empregadas sistematicamente durante o regime militar.
O texto cita especificamente o episódio da madrugada do dia 18 de janeiro, quando uma participante desmaiou após mais de 100 horas de reclusão no Quarto Branco. Ela foi obrigada a permanecer em pé em um pedestal com ínfimo diâmetro, prática que os signatários comparam a métodos de tortura utilizados em ditaduras latino-americanas.
Violência transformada em espetáculo
A carta argumenta que não se pode aceitar o consentimento dos participantes ou a busca pelo prêmio como justificativa para tais práticas. Eles lembram que a Constituição Federal, em seu Artigo 5º, estabelece a proibição absoluta da tortura e do tratamento degradante.
Os signatários criticam a transformação desse tipo de sofrimento em espetáculo, afirmando que a televisão brasileira falha com seu dever social. Eles citam o Artigo 221 da Constituição, que determina que as concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando sempre os valores éticos e sociais da pessoa e da família.
Alerta para a sociedade brasileira
Como integrantes de um órgão de Estado responsável por medidas de memória, verdade e reparação das vítimas da ditadura, os signatários esperam que a carta sirva de alerta. Eles fazem dois apelos específicos:
- Que a emissora considere seriamente rever a utilização das práticas descritas.
- Que a sociedade brasileira reflita sobre sua adesão a essa forma de entretenimento.
O documento enfatiza que a memória das vítimas da violência de Estado exige que não sejamos coniventes com a dessensibilização da população diante da dor alheia.
Signatários da carta
A Carta Aberta foi assinada por:
- Diva Soares Santana - Representante dos familiares de mortos e desaparecidos políticos
- Vera Facciolla Paiva - Representante da sociedade civil
- Maria Cecília Adão - Representante da sociedade civil
- Natália Bonavides - Representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados
- Eugênia Augusta Gonzaga - Procuradora Regional da República e Presidenta da CEMDP
O documento cita ainda uma frase do ator Wagner Moura: Se um trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem, reforçando a preocupação com a transmissão de valores através da programação televisiva.