Holanda adota semana de quatro dias: produtividade alta, mas desafios de sustentabilidade
Semana de 4 dias na Holanda: sucesso e desafios futuros

Holanda adota semana de quatro dias: produtividade alta, mas desafios de sustentabilidade

Os holandeses implementaram discretamente a jornada de trabalho de quatro dias por semana, uma prática que já se tornou comum no país há vários anos, inclusive em grandes empresas. Gavin Arm e Bert de Wit, cofundadores da Positivity Branding, uma empresa de consultoria em identidade de marca com sede em Amsterdã, adotaram o modelo há sete anos para si e para seus funcionários, sem redução salarial ou aumento de horas nos dias trabalhados.

O equilíbrio entre vida pessoal e profissional esteve no centro da decisão, conforme explica de Wit. "Trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa", afirma, destacando que a mudança cultural e mentalidade é o maior desafio. Arm complementa que a motivação veio da vontade de não perder momentos importantes da vida familiar, como o crescimento dos filhos.

Impacto positivo nas empresas

Marieke Pepers, diretora de gestão de pessoas da empresa de software Nmbrs, relata que, desde a adoção da semana de quatro dias, as licenças médicas diminuíram e a retenção de funcionários aumentou. Ela tira sextas-feiras de folga e afirma ter suas melhores ideias durante passeios com o cachorro, o que beneficia a empresa. No entanto, a proposta enfrentou resistência inicial, exigindo convencimento de investidores e ajustes na priorização de tarefas e redução de reuniões.

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Os trabalhadores holandeses cumprem, em média, 32,1 horas por semana, a menor carga horária da União Europeia, bem abaixo da média do bloco, de 36 horas. Apesar disso, o PIB per capita do país está entre os mais altos da Europa, desafiando a premissa de que jornadas longas são necessárias para competitividade.

Desafios econômicos e sustentabilidade

Daniela Glocker, economista da OCDE responsável pela Holanda, alerta que, embora o país tenha alta produtividade, ela não cresceu nos últimos 15 anos. Para manter a qualidade de vida, os holandeses precisarão aumentar a produtividade ou ampliar a oferta de trabalho, possivelmente com maior imigração. A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE, com quase metade dos empregados trabalhando menos que a jornada integral.

Nicolas Gonne, também economista da OCDE, questiona a sustentabilidade do modelo diante do envelhecimento populacional: "Há um limite para o que se pode fazer com poucos trabalhadores". O sindicato FNV continua pressionando o governo para tornar a semana de quatro dias uma recomendação oficial, argumentando que pode beneficiar energia, produtividade e sociedade.

Desigualdade de gênero e oferta de trabalho

Uma forma de ampliar a oferta de trabalho seria aumentar a participação de mulheres holandesas em jornadas integrais. Mais da metade das mulheres no país trabalha em tempo parcial, cerca de três vezes a média da OCDE. O acesso a creches a preços acessíveis e a complexidade do sistema tributário são entraves importantes.

Peter Hein van Mulligen, do Escritório Central de Estatísticas da Holanda, aponta um "conservadorismo institucionalizado" na sociedade, com muitos holandeses acreditando que mães com filhos pequenos não deveriam trabalhar mais que um a três dias por semana. Yvette Becker, do sindicato FNV, afirma que a semana de quatro dias pode ajudar a reduzir a desigualdade de gênero e tornar profissões em setores com escassez de mão de obra, como educação e saúde, mais atrativas.

De Wit ressalta que o modelo torna o emprego "mais atraente", enquanto Arm enfatiza a importância da felicidade e do aproveitamento da vida. A experiência holandesa mostra que a semana de quatro dias é viável, mas exige adaptações contínuas para garantir sua sustentabilidade econômica e social a longo prazo.

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