Brasileiro trabalha menos que a média mundial, aponta estudo da FGV
Uma pesquisa abrangente com dados de 160 países, cobrindo 97% da população global, revelou que os trabalhadores brasileiros dedicam menos horas semanais ao trabalho remunerado em comparação com a média internacional. O estudo, conduzido pelo economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, utilizou um novo banco de dados global organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Dados comparativos e metodologia
Os dados mostram que, entre 2022 e 2023, trabalhadores de todo o mundo destinaram em média 42,7 horas semanais a atividades remuneradas. Em contraste, os brasileiros ocupados em empregos formais e informais dedicaram apenas 40,1 horas semanais em média no mesmo período. O banco de dados, disponível desde novembro do ano passado, é considerado o mais amplo já construído sobre o tema e confirma relações esperadas entre características demográficas, renda per capita, impostos e transferências realizadas por cada país.
Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado, segundo a análise. Para Duque, o que provavelmente explica esse desvio é uma questão cultural: uma preferência por maior quantidade de lazer. Na comparação direta com outros 86 países com dados por mais de duas décadas, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas.
Rankings e desempenho relativo
Quando se considera a quantidade de horas trabalhadas esperada com base no nível de produtividade e estrutura demográfica, o Brasil cai para o terço de menor esforço global, ocupando a 60ª posição entre 85 países para trabalhadores com 15 anos ou mais. A situação não melhora quando impostos e transferências, como aposentadorias e benefícios de renda mínima, são incorporados à análise. Nesse ranking, o Brasil ocupa a 53ª posição entre 76 países, novamente no terço inferior de desempenho.
De modo geral, a produtividade dos trabalhadores é a característica que melhor explica a quantidade de horas trabalhadas mundialmente, mas de maneira não linear. A relação segue a forma de uma montanha: à medida que a produtividade aumenta em países de renda média, as horas trabalhadas também crescem. No entanto, após certo ponto, quando a produtividade e o consumo já são altos, os trabalhadores passam a valorizar mais o lazer, reduzindo as horas trabalhadas.
O que Duque descobriu é que os trabalhadores brasileiros escolheram "descer a serra" e trabalhar menos antes de ficarem ricos. No Brasil, trabalha-se 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria esperado dado seu nível de produtividade e perfil demográfico.
Exemplos internacionais e impacto econômico
Nos rankings montados, os Emirados Árabes Unidos lideram entre os que mais desviam positivamente em horas trabalhadas, enquanto a Moldávia ocupa o último lugar. Em outro ranking que considera impostos e transferências, o Japão se destaca positivamente, e Moçambique aparece em último, com quase 14 horas a menos do que o esperado.
Segundo Duque, ele imaginava que altos encargos trabalhistas e transferências significativas no Brasil explicassem as horas abaixo da média, mas descobriu o contrário: mesmo considerando impostos e transferências, os brasileiros ainda trabalham 1 hora e 18 minutos a menos do que seria esperado.
O economista Samuel Pessôa, colega de Duque no FGV Ibre, afirma que a escolha por menos trabalho e mais lazer é legítima. "Parece ser um sinal de que lazer, no Brasil, vale mais do que em outros lugares – e está tudo certo", disse ele. No entanto, Pessôa lembra que as muitas horas gastas no trânsito podem impactar a oferta de trabalho.
Seja qual for a razão, o resultado é uma menor renda per capita. Duque observa que mesmo com aumento de produtividade nas horas restantes, a compensação não será total. Pessôa destaca que parte da diferença de renda per capita entre o Brasil e países asiáticos, como Coreia e Taiwan, se deve à quantidade de horas trabalhadas. Homens coreanos trabalham 5 horas e 18 minutos a mais do que o esperado, enquanto brasileiros trabalham meia hora a menos – uma diferença de quase 6 horas semanais. Para mulheres, a diferença chega a 11 horas semanais.
"Se a gente trabalha 25% a menos, mesmo que a produtividade por hora seja a mesma, nosso PIB per capita vai ser 25% menor", resume Pessôa. Ele considera relevante ter esse impacto em mente nas discussões sobre redução da jornada de trabalho, como o fim da escala 6x1. A medida não será inócua, e a justificativa de que já se trabalha muito é questionada pelos dados, que mostram que, na média, os brasileiros não trabalham tanto quanto se imagina.



