Raízen e Grupo Pão de Açúcar solicitam recuperação extrajudicial para renegociar dívidas bilionárias
Raízen e GPA pedem recuperação extrajudicial de R$ 65,1 bilhões

Raízen e Grupo Pão de Açúcar buscam recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 65,1 bilhões

Em um movimento significativo no cenário empresarial brasileiro, a Raízen e o Grupo Pão de Açúcar (GPA) protocolaram nesta quarta-feira (11) um pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. A medida ocorre em meio a uma forte pressão financeira sobre as companhias, com as ações da Raízen (RAIZ4) acumulando uma queda impressionante de 70,11% nos últimos 12 meses.

Impacto imediato no mercado

Após o anúncio, os papéis preferenciais (PN) da Raízen abriram em queda acentuada. Por volta das 10h25, a RAIZ4 registrava uma desvalorização de 3,85%, sendo cotada a R$ 0,50. Em 2026, a desvalorização já alcança 35,80%, refletindo a preocupação dos investidores com a situação financeira da empresa. Atualmente, o valor de mercado da Raízen está estimado em cerca de R$ 5,38 bilhões, um valor consideravelmente inferior ao montante da dívida que busca renegociar.

Contexto da reestruturação

A reestruturação da controlada pela Cosan acontece após um período prolongado de pressão financeira, caracterizado pelo aumento do endividamento e desafios operacionais significativos. Nos últimos anos, a companhia ampliou seus investimentos em projetos de transição energética, muitos dos quais apresentaram retorno mais lento do que o inicialmente esperado.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O plano de recuperação extrajudicial já conta com o apoio de credores que representam mais de 47% do valor total da dívida, percentual suficiente para protocolar o pedido. A medida tem como objetivo principal reorganizar as finanças da empresa, ampliando prazos ou melhorando as condições de pagamento, sem afetar as operações cotidianas.

Detalhes do plano de recuperação

Segundo informações divulgadas pela empresa, clientes, fornecedores e parceiros continuarão sendo pagos normalmente durante o processo. A Raízen terá um prazo de até 90 dias para obter o apoio mínimo necessário para que o plano seja homologado pela Justiça e passe a valer para todos os credores incluídos na negociação.

O plano de recuperação pode incluir diversas estratégias, tais como:

  • Aporte de recursos adicionais pelos acionistas
  • Conversão de parte das dívidas em ações da companhia
  • Alongamento dos prazos de pagamento das obrigações financeiras
  • Mudanças na estrutura organizacional da empresa
  • Venda de ativos considerados não essenciais para o negócio principal

Trajetória de expansão e desafios recentes

A partir de 2016, a Raízen iniciou uma fase de expansão agressiva em projetos de longo prazo, muitos deles financiados através de dívida. Um dos principais focos foi a expansão da produção de etanol de segunda geração (E2G), tecnologia que utiliza resíduos da cana-de-açúcar, como bagaço e palha, para produzir biocombustível.

Esta aposta estava diretamente ligada à expectativa de crescimento da demanda por combustíveis com menor impacto ambiental, em meio ao avanço das discussões globais sobre transição energética. Paralelamente, a companhia investiu em outras frentes de energia, incluindo projetos de geração solar e produção de biogás.

No entanto, o setor começou a registrar o avanço do etanol de milho, que ganhou espaço com custos competitivos e uma estrutura de produção considerada mais simples. A expansão internacional também ganhou força a partir de 2018, quando a empresa adquiriu ativos de refino e distribuição da Shell na Argentina e passou a atuar no Paraguai.

Diversificação de negócios e resultados financeiros

Além da produção de energia e biocombustíveis, a Raízen ampliou significativamente sua atuação na distribuição e comercialização de combustíveis. A empresa fornece combustíveis para postos da rede Shell, aeroportos e clientes corporativos de diversos setores, incluindo transporte, agronegócio, mineração e indústria.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A operação inclui 68 bases de abastecimento em aeroportos e mais de 70 terminais de distribuição espalhados pelo país. A companhia também atua no abastecimento de companhias aéreas e da aviação executiva, oferecendo soluções integradas para empresas.

No ano fiscal de 2021/2022, a Raízen registrou um lucro líquido de R$ 3 bilhões, com uma dívida líquida de R$ 13,8 bilhões — nível considerado administrável na época. Contudo, nos anos seguintes, esse cenário mudou drasticamente.

Até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, a empresa acumulou um prejuízo de R$ 15,6 bilhões, parcialmente influenciado por um ajuste contábil de R$ 11 bilhões. Simultaneamente, a dívida líquida da companhia cresceu exponencialmente, chegando a R$ 55,3 bilhões.

Estratégia de reorganização e posicionamento da empresa

Em teleconferência recente, executivos da Raízen afirmaram que a estratégia atual envolve retomar o foco nas atividades consideradas centrais do negócio, como a produção de açúcar e etanol e a distribuição de combustíveis e lubrificantes. Nos últimos anos, a companhia iniciou a venda de alguns ativos e a saída de operações consideradas menos ligadas ao núcleo do negócio.

As tentativas de reforçar o capital da empresa, no entanto, enfrentaram divergências entre os sócios. Com o aumento das pressões financeiras e a cobrança de credores, a empresa passou a buscar uma solução mais ampla para reorganizar sua estrutura de capital — processo que culminou no pedido de recuperação extrajudicial.

A Raízen enfatiza que a renegociação envolve apenas parte das dívidas financeiras e não afeta as operações da companhia. Em nota oficial, a empresa declarou: "A Raízen informa que protocolou nesta quarta-feira (11) pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial, voltado à reorganização de parte de suas obrigações financeiras junto a credores da companhia. A proposta foi estruturada em diálogo com esses credores e tem como objetivo estabelecer um ambiente jurídico adequado para a negociação e implementação de ajustes em determinadas obrigações financeiras, no âmbito da estratégia da companhia de otimização de sua estrutura de capital."

A empresa ressaltou ainda que "o escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dívidas ou obrigações operacionais", garantindo que todas as relações com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócio permanecem preservadas e regidas normalmente pelos respectivos contratos.