O programa Desenrola 2.0, anunciado na segunda-feira 27 pelo ministro da fazenda, Dario Durigan, oferece um alívio momentâneo para milhões de brasileiros inadimplentes, mas não resolve o problema estrutural do endividamento no país. A avaliação é do professor Ricardo Rocha, que critica a iniciativa por apostar apenas em descontos e no uso do FGTS sem enfrentar a ausência de educação financeira, o que tende a levar muitos beneficiados de volta ao mesmo ciclo de dívidas.
Educação financeira
Rocha chama atenção para a dimensão do problema ao lembrar que o Brasil reúne entre 72 e 75 milhões de pessoas endividadas. Na comparação feita por ele, se esse grupo formasse um país, seria a terceira maior população da América Latina. “É uma Itália de devedores”, resume, ao destacar a gravidade da inadimplência e o impacto social desse cenário.
Novas dívidas
Na avaliação do professor, medidas como renegociação com descontos e liberação de recursos do FGTS não educam financeiramente a população. Para ele, grande parte dessas pessoas voltará a se endividar porque o problema não está apenas no acesso ao crédito, mas na falta de planejamento e de orientação sobre como administrar renda e despesas.
Governo também gasta demais
Ele também afirma que a educação financeira precisa começar pelo próprio poder público. Segundo Rocha, o governo também demonstra desorganização fiscal e contribui para uma cultura de má gestão financeira. Sem uma política consistente de longo prazo, o Desenrola tende a funcionar apenas como uma solução emergencial, sem impedir a reincidência da inadimplência.
Colateral, capacidade e caráter
Ao analisar o crédito, o professor cita os chamados “três Cs”: colateral, capacidade e caráter. Nas dívidas sem garantia, como cartão de crédito, a inadimplência é maior porque não há bens para execução. Além disso, muitos brasileiros perderam capacidade de gerar renda suficiente para quitar débitos, enquanto outra parcela, segundo ele, simplesmente não vê problema em deixar de pagar e pode aproveitar os descontos apenas para contrair novas dívidas.
Nós pagamos
Sobre o custo da operação, Rocha afirma que quem paga a conta é toda a sociedade. Isso ocorre porque bancos que concedem descontos recebem benefícios fiscais e recolhem menos imposto de renda, reduzindo a arrecadação da União. O uso do FGTS também diminui o patrimônio do fundo, afetando sua capacidade de financiar programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida. Para ele, há ainda uma distorção social: quem paga suas contas em dia acaba subsidiando quem não paga. Ainda assim, o professor reconhece que o programa ajuda no curto prazo, especialmente para quem perdeu acesso ao crédito até para despesas básicas, como remédios e alimentação.



