Executivos alertam: carências de infraestrutura travam negócios e desenvolvimento do Brasil
Os investimentos em infraestrutura no Brasil estão avançando, porém permanecem distantes dos níveis necessários para suprir todas as demandas do país. Esta realidade, somada a inseguranças contratuais e institucionais, dificulta tanto os negócios das empresas que atuam no setor quanto o desenvolvimento nacional como um todo. Estes foram os principais temas debatidos por executivos de grandes concessionárias durante o VEJA Fórum Infraestrutura, realizado nesta sexta-feira, 27 de março de 2026, na cidade de São Paulo.
Gargalos logísticos impedem progresso
André Hachem, diretor financeiro da Hidrovias do Brasil, concessionária de transporte hidroviário do Grupo Ultra, foi enfático ao afirmar: "Sem um planejamento integrado entre os agentes para a logística do país, nós não vamos sair do lugar". Ele destacou não apenas os baixos investimentos na exploração e expansão das hidrovias – modal de transporte mais barato e menos poluente – mas também a falta de recursos em outras estruturas essenciais, como rodovias e acesso aos portos.
Estes gargalos, segundo Hachem, dificultam significativamente as integrações já existentes entre diferentes modais de transporte. "O Ultra colocou 1,2 bilhão de reais na empresa para ampliarmos nossos investimentos, nossa frota e nossa presença nos portos", explicou o executivo, "mas precisamos que outros investimentos também sejam feitos para que o sistema funcione de maneira integrada e eficiente".
Demanda urbana versus investimento real
André de Angelo, presidente para o Brasil da espanhola Acciona, trouxe à tona o exemplo da insuficiência da malha de transporte urbano no país. "Cerca de 85% dos brasileiros vivem nas cidades, a demanda é tremenda e o cálculo do setor é de que precisaríamos investir 47 bilhões de reais para sanar os gaps que temos hoje", afirmou Angelo. "Mas, no ano passado, o país investiu apenas 6 bilhões de reais em mobilidade urbana".
A Acciona é a concessionária responsável pelas obras e operação da Linha Laranja do metrô de São Paulo, que, de acordo com Angelo, deve ter suas primeiras estações inauguradas ainda em 2026 e estar completamente operacional a partir do próximo ano. Este projeto exemplifica tanto o potencial quanto os desafios enfrentados pelo setor de infraestrutura urbana no Brasil.
Modelo de privatização como exemplo positivo
Samanta Souza, diretora de relações institucionais da Sabesp, destacou os avanços significativos alcançados através da modelagem do contrato que levou à privatização da companhia há dois anos. "O setor de saneamento depende de uma alavancagem muito alta e o Brasil precisa ainda de muito recurso para universalizar a rede", explicou Souza. "Ter uma regulação fortalecida e uma base de política pública sólida é essencial para que a gente evolua nesse sentido".
De acordo com a executiva, que trabalha na Sabesp há quase três décadas, os investimentos da companhia saltaram da faixa dos 5 bilhões de reais anuais, antes da privatização, para impressionantes 15 bilhões de reais no ano passado. "Isso representa em torno de 550 reais por habitante ao ano, bem mais do que os 120 reais que tínhamos antes da privatização", comparou Souza.
Conclusão: necessidade de planejamento integrado
Os executivos foram unânimes em apontar que, sem investimentos adequados e um planejamento integrado entre diferentes modalidades de transporte e infraestrutura, o Brasil continuará enfrentando dificuldades para desenvolver todo seu potencial econômico. A combinação de recursos privados com políticas públicas sólidas e regulação eficiente aparece como caminho fundamental para superar os atuais desafios estruturais que limitam tanto os negócios quanto o desenvolvimento nacional.



