O Novo Desenrola Brasil, lançado pelo governo federal na segunda-feira (4), promete aliviar o orçamento de famílias endividadas, mas levanta preocupações econômicas estruturais. Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que a medida não impede o agravamento do endividamento no futuro. O programa permite renegociação de dívidas com descontos de 30% a 90% e condições facilitadas, incluindo juros menores. Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), com possibilidade de usar parte do FGTS.
Pontos positivos do programa
Alívio no bolso e controle das contas
O benefício mais imediato é a melhora na saúde financeira. O economista Alexandre Chaia, do Insper, destaca que o programa "traz um alívio das famílias" em um cenário de renda crescente, mas endividamento elevado. "Quando você cria um programa que melhora a relação da dívida e reduz os juros, esses são pontos positivos", afirma.
Ataque a dívidas com juros elevados
O Novo Desenrola prevê descontos de até 90% e juros limitados a 1,99% ao mês. A planejadora financeira Carol Stange afirma que a renegociação "representa uma saída real" para quem está preso a juros que podem chegar a 400% ao ano.
Inclusão do Fies beneficia jovens
A renegociação de dívidas estudantis é vista como acerto estratégico. Para Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil, isso "pode evitar que um passivo de longo prazo continue travando a vida financeira de jovens e recém-formados". O programa oferece descontos de até 99% no Fies para parcelas vencidas há mais de três meses.
Uso do FGTS evita novos empréstimos
Especialistas consideram o uso do FGTS uma troca racional. Chaia afirma que é positivo "trocar um dinheiro que rende pouco por uma dívida que tem um custo alto". O programa permite usar até 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil para quitar dívidas.
Bloqueio às bets melhora controle de gastos
O programa bloqueia o CPF do beneficiário em plataformas de apostas por 12 meses. Carol Stange vê a medida como positiva para conter gastos compulsivos, já que "parte do endividamento atual tem relação direta com o crescimento das bets".
Pontos negativos do programa
Alívio temporário sem resolver causas
Especialistas concordam que o programa não resolve o problema estrutural do endividamento, causado por falta de educação financeira e juros elevados. Otávio Araújo afirma: "O programa trata a consequência, mas não elimina o fator que empurra as famílias para o vermelho". O economista Bruno Carazza lembra que o primeiro Desenrola trouxe alívio temporário, mas a curva de endividamento voltou a subir.
Gastos públicos e ciclo vicioso
As garantias públicas podem aumentar a pressão fiscal. O governo usará entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões em recursos esquecidos para viabilizar descontos. Chaia alerta: "O governo vai usar um dinheiro que não é dele. Então, vai ter que repor em algum momento". Isso pode elevar a dívida pública e manter os juros altos.
Risco de novo endividamento
O alívio no orçamento pode estimular novos gastos. Chaia ressalta: "As famílias vão voltar a se endividar, porque o alívio tem como objetivo estimular mais consumo". Ele vê caráter eleitoreiro na medida, a cerca de seis meses da eleição.
Uso do FGTS reduz proteção financeira
O uso do FGTS enfraquece a proteção do trabalhador em momentos críticos, como demissão. Carol Stange alerta: "Para quem tem emprego instável, pode ser trocar uma vulnerabilidade por outra". Além disso, o fundo é fonte do Minha Casa Minha Vida, e sua redução pode exigir aporte público.
Bom pagador penalizado
O programa pode gerar risco moral, incentivando inadimplência na expectativa de novos perdões. Otávio Araújo explica: "O custo dessas iniciativas é diluído para toda a sociedade, inclusive para quem mantém as contas em dia". O economista Daniel Sousa já havia dito que o Brasil "premia o mau pagador".



