A Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola do Brasil, encerrou sua edição de 2026 com uma redução de 22% no volume de negócios em comparação com o ano anterior. De acordo com dados divulgados pela organização nesta sexta-feira (1º), o evento prospectou R$ 11,4 bilhões, montante R$ 3,2 bilhões inferior ao registrado em 2025. Esse resultado reflete o cenário de queda de 20% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas no primeiro trimestre, impactado por altas taxas de juros que dificultam o acesso ao crédito e pelos desdobramentos da guerra no Oriente Médio, que elevam os custos de produção e reduzem o capital dos produtores para investimentos.
Apesar da redução nos negócios, o público visitante se manteve estável, com 197 mil pessoas, mesmo número do ano passado. João Carlos Marchesan, presidente da Agrishow, destacou a resiliência do setor: "Embora estejamos vivendo um mercado desfavorável há três anos, continuamos investindo no que há de melhor para a agricultura tropical no Brasil. Acreditamos que o futuro do país vem do agronegócio. Sabemos que a agricultura vive de ciclos, e este é desfavorável, mas temos convicção de que os próximos anos serão favoráveis."
Estratégias para driblar a crise
Para enfrentar os desafios econômicos, fabricantes e cooperativas adotaram condições especiais. Breno Cavalcanti, diretor de marketing da Massey Ferguson, afirmou que as visitações ao estande da marca foram intensas, na contramão dos resultados negativos do setor. "O mercado está em um momento complexo, mas para nós a movimentação foi muito positiva." A empresa ofereceu condições especiais para consórcios, descontos e redução de taxas, além de campanhas que se estendem até maio, incluindo revisões gratuitas em alguns produtos.
A Coopercitrus também investiu em estratégias para atrair produtores, como linhas de financiamento especiais, produtos a pronta entrega e o sistema de barter, em que a safra futura de grãos é usada como pagamento por insumos. O CEO Fernando Degobbi explicou que a cooperativa organizou transporte para produtores de regiões distantes, resultando em movimentação recorde no estande, que representa até 20% do faturamento anual. "Não sabemos quanto tempo a guerra vai durar, mas alguns produtos pós-guerra devem cair de preço. O produtor precisa estar atento ao tempo de plantio e aplicação de insumos."
Retorno surpreendente para algumas empresas
Apesar do cenário geral de queda, algumas empresas superaram as expectativas. A Tritucap, de Sertãozinho (SP), retornou à feira após sete anos com uma tecnologia sustentável para erradicação de lavouras de café. O volume de vendas foi três vezes maior que o previsto, e equipamentos para citricultura, fruticultura e pastagens também tiveram boa aceitação. A empresa já avalia ampliar sua área de exposição em 2027.
Luís Pio, presidente da Herbicat, que desenvolve tecnologias de aplicação de insumos como um pulverizador inteligente, considerou esta a melhor Agrishow da história da empresa. "Registramos mais de 300 contatos de interessados, com retorno estimado de 10% a 20% em vendas no pós-evento. Saímos com uma carteira de prospecção mais robusta que na edição passada."
Ativações e movimentação financeira
A Agrishow, que ocupa uma área superior a 50 campos de futebol, movimentou R$ 5 milhões apenas com ativações e ações promocionais nos estandes, por meio da BP One, especializada em live marketing. Tânia Noguchi, diretora de estratégia da BP One, destacou a importância do estande como plataforma de relacionamento: "É o espaço onde a marca se posiciona e traduz inovação. A interação foi extremamente positiva." A empresa operou estandes de grandes marcas como Valtra (3,5 mil m²) e Baldan (4 mil m²).
Palco político no interior de SP
Pela relevância do agronegócio, a Agrishow tornou-se parada obrigatória para pré-candidatos à presidência nas eleições de 2026. No domingo (26), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) anunciou uma linha de crédito de R$ 10 bilhões para compra de equipamentos agrícolas. Na segunda-feira (27), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Flávio Bolsonaro (PL) visitaram a feira e criticaram as políticas federais para o setor. Na terça (28), Romeu Zema (Novo-MG) criticou o STF e rebateu declarações do ministro Gilmar Mendes. Na quarta (29), Ronaldo Caiado (PSD) questionou a proximidade de políticos com o agro apenas em época eleitoral, e Aldo Rebelo (DC) sugeriu um "emendão" para desbloquear obras travadas pelo STF.



