O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarca para Washington nesta quarta-feira (6) para um encontro oficial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quinta-feira (7), na Casa Branca. Para analistas ouvidos pelo g1, o encontro pode ajudar Lula, embora também traga riscos.
A reunião entre os dois líderes era negociada desde janeiro e estava inicialmente prevista para março, mas foi adiada em meio à guerra que os EUA travam contra o Irã no Oriente Médio. A nova data, no entanto, foi anunciada à imprensa em cima da hora, na última segunda-feira (4), com apenas três dias de antecedência, o que é bastante atípico, segundo o analista político norte-americano Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, focada na política na América Latina.
"Em outros governos, uma visita como essa teria sido cuidadosamente coreografada por várias agências governamentais. Neste caso, é realmente diferente", afirmou Winter. O analista disse ter recebido informações da Casa Branca de que o encontro foi "100% convocado por Washington".
O "timing estranho", no entanto, pode ajudar Lula em um momento de vulnerabilidade interna, dados os conflitos com o Congresso e a queda na aprovação. Winter acredita que Lula atuará na "defensiva", ao contrário do último encontro que teve com Trump. "Suspeito que os objetivos do Brasil sejam principalmente defensivos. Impedir que Trump seja um fator na eleição de outubro, que interfira em nome dos Bolsonaro".
Ainda assim, o analista avalia que a reunião também pode servir a interesses de Brasília para tentar blindar o governo de novas tarifas ou mesmo da interferência de Trump nas eleições de outubro. "Se o saldo da visita for positivo, isso poderia ajudar Lula a parecer mais pragmático e relevante globalmente, possivelmente influenciando eleitores indecisos", concluiu Winter.
Os riscos para Lula
A reunião não é livre de riscos para Lula. Pelo contrário, tudo dependerá dos temas discutidos no encontro, avalia o cientista político Oliver Stuenkel. O governo brasileiro deve tentar levar para a pauta o PIX, as terras raras e tarifas, mas, principalmente, parcerias no combate ao crime organizado, para evitar que os EUA classifiquem facções brasileiras como terroristas.
"Certamente, o governo brasileiro tentará utilizar essa reunião para mostrar que o Lula é um estadista, que conseguiu desarmar essa bomba (do tarifaço, no ano passado) sem abrir mão da soberania. Mas também é uma visita com temas reais. Não é só tirar fotos para a eleição", disse ao g1 o cientista político Oliver Stuenkel. "Os EUA ainda têm investigações abertas relacionadas ao Brasil (como o processo que pede extradição de Alexandre Ramagem) que pode levar a tarifas adicionais".
Armadilhas de Trump
Para Brian Winter, há também "uma pequena, porém real, possibilidade de que as coisas corram mal". O analista se refere às "armadilhas" que Donald Trump já fez com alguns chefes de governo que recebeu na Casa Branca — caso das visitas, no ano passado, dos presidentes ucraniano, Volodymyr Zelensky, e sul-africano, Cyril Ramaphosa. Nas duas ocasiões, Trump e secretários dos EUA constrangeram os presidentes com acusações em meio a uma entrevista informal para a imprensa no Salão Oval.
Fontes de Washington indicam que Lula e Trump receberão a imprensa no Salão Oval, mas os analistas veem baixas as chances de uma "emboscada", embora não descartem a possibilidade de um confronto. "Não acho que Trump esteja indo para essa reunião com intenções negativas. Pelo contrário, acho que a Casa Branca provavelmente espera um resultado positivo. Mas, dependendo do conteúdo discutido, pode acabar em um confronto", avalia Winter.
Um risco, disseram os especialistas, é que Lula seja confrontado com questões sobre a postura dos Estados Unidos na guerra do Irã, que ele já criticou. No último encontro que travaram, em outubro do ano passado, Lula e Trump trocaram elogios. Depois da reunião, os EUA retiraram as tarifas extras que haviam anunciado antes para o Brasil, como retaliação ao processo que corria no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump.



