BNDES adota novo papel e atrai R$300 bilhões em infraestrutura
BNDES atrai R$300 bilhões em infraestrutura

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está passando por uma transformação significativa. Após anos de turbulências políticas e financeiras, a instituição adotou uma postura pragmática, deixando de lado os subsídios e convidando o mercado de capitais para participar ativamente dos projetos de infraestrutura. Essa mudança gerou um ambiente favorável para uma onda inédita de investimentos, que atingiu quase 300 bilhões de reais em 2025, o maior volume em seis anos de altas consecutivas.

Mudança de postura do BNDES

Criado em 1952, o BNDES foi, por décadas, um reflexo das prioridades de cada governo, sendo usado como instrumento de nacionalismo econômico ou veículo de escolhas eleitorais. Financiamentos bilionários a campeões nacionais que não vingaram, empréstimos subsidiados a empresas com acesso privilegiado ao poder e projetos aprovados com critérios opacos mancharam sua reputação. A Operação Lava-Jato, entre 2014 e 2021, expôs essa vocação de forma contundente, levando empreiteiras que cresceram à sombra do banco ao colapso.

No entanto, desde 2023, sob a presidência do economista Aloizio Mercadante, o banco adotou uma postura diferente. “Nossa equipe é pragmática”, afirma Luciana Costa, diretora de infraestrutura do BNDES. “Os nossos critérios são estratégicos, técnicos e comerciais, sem viés político-ideológico.” Ao abandonar os subsídios, o banco abriu espaço para que bancos privados e o mercado de capitais financiassem obras de longo prazo, como rodovias, ferrovias, metrôs, portos, aeroportos e redes de saneamento.

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Participação do mercado de capitais

Luciana Costa destaca que a multiplicação dos fundos de investimento em infraestrutura e as debêntures incentivadas trouxeram um ganho enorme em capilaridade para o setor. “Hoje, o Brasil tem milhões de pessoas investidoras em infraestrutura. Esse círculo virtuoso não teria sido possível apenas com recursos do orçamento público”, afirma. O banco deixou de atuar apenas como repassador de recursos subsidiados para assumir o papel de cofinanciador, dividindo espaço com o setor privado.

O mercado respondeu positivamente: em 2025, as debêntures incentivadas movimentaram 175 bilhões de reais, um recorde. Esses títulos são isentos de imposto de renda para pessoas físicas e amplamente usados em projetos de infraestrutura.

Obras em andamento

Atualmente, estão em andamento 360 obras significativas de infraestrutura em todas as regiões do país, segundo a plataforma ConVisão. Os segmentos incluem mobilidade urbana, rodovias, ferrovias, saneamento, portos, aeroportos, energia e logística. Entre as megaconstruções, destacam-se o monotrilho do Aeroporto de Congonhas ao Morumbi, em São Paulo, inaugurado parcialmente em março; a barragem sobre o arroio Jaguari, no Rio Grande do Sul; e a rodovia Transnordestina, que conecta Piauí, Ceará e Pernambuco por 1.200 quilômetros.

Segundo a Abdib, associação das empresas do setor de infraestrutura, o conjunto das grandes obras gerou 6 milhões de empregos nos últimos anos.

Atração de investidores estrangeiros

A qualidade do ambiente regulatório brasileiro, aperfeiçoado desde a lei de concessões de 1995 e pela nova lei de licitações nº 14.133, de 2021, atraiu grandes grupos de construção pesada do mundo. A espanhola Acciona, com operações em quarenta países, conduz a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, com quinze estações em 15 quilômetros de extensão, a maior obra de infraestrutura em execução na América Latina. “Ao lado de Estados Unidos e Austrália, aqui temos as nossas maiores operações fora da Espanha”, diz André De Angelo, CEO da empresa no Brasil. A Acciona também prepara obras de saneamento em parceria público-privada no Paraná, no Espírito Santo e em Pernambuco.

“O modelo regulatório do Brasil para a área de infraestrutura está entre os mais avançados do mundo”, acrescenta De Angelo. A percepção é compartilhada por outros investidores. “Temos hoje o melhor modelo de estruturação de projetos de infraestrutura do mundo”, afirma Venilton Tadini, presidente da Abdib.

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Privatizações e novos investimentos

As privatizações de estatais também contribuem para o aumento dos investimentos. A Axia Energia, sucessora da Eletrobras, anunciou em abril aportes de cerca de 6 bilhões de reais até 2030 para modernizar 124 subestações de energia. “Esse patamar de investimentos reflete o compromisso com a eficiência operacional dos nossos ativos, sempre com foco nos resultados para os acionistas”, afirma Elio Wolff, vice-presidente de estratégia e desenvolvimento de negócios da Axia. Listada na B3, a empresa aprovou no fim de 2025 a distribuição de 30 bilhões de reais aos acionistas por meio de novas ações.

Papel da Abdib e modernização jurídica

A Abdib atua como ponte entre empresas, bancos de fomento e fontes de financiamento. A entidade é responsável pelo Livro Azul, publicação em cinco idiomas distribuída para representações comerciais brasileiras no exterior, com informações sobre projetos em oferta e andamento. “Entre os primeiros estudos e o início de uma grande obra de infraestrutura, o Brasil leva de um ano e meio a dois anos para completar todo o processo”, diz Roberto Figueiredo Guimarães, diretor da Abdib e ex-secretário do Tesouro. “Estamos em linha com os países mais avançados do mundo.”

A agilidade é fruto da modernização jurídica dos contratos, que gerou novos instrumentos de proteção ao investidor. “O modelo do seguro de garantia advém dessa modernização: tem custo menor e maior proteção aos investidores em caso de problemas financeiros no curso das obras”, diz André Dabus, diretor de infraestrutura e construção da corretora americana de seguros Marsh.

Com regras mais claras, capital privado mais abundante e um banco de fomento disposto a dividir riscos, o Brasil começa a construir não apenas obras, mas um novo modelo de desenvolvimento.