Títulos da Venezuela: Oportunidade ou Risco Após a Queda de Maduro?
Títulos da Venezuela: Oportunidade ou Risco Pós-Maduro?

Títulos da Venezuela: Oportunidade ou Risco Após a Queda de Maduro?

A deposição de Nicolás Maduro pelas forças americanas, no início de janeiro, provocou uma reviravolta radical no mercado de títulos de dívida da Venezuela. Os papéis do governo e da estatal de petróleo PDVSA, que deram calote em 2017, estavam praticamente sem valor, mas agora experimentam uma valorização expressiva, atraindo a atenção de investidores em busca de retornos elevados.

Valorização Expressiva e Volumes Recordes

Os títulos venezuelanos, que eram negociados a apenas 1,5 centavo de dólar, saltaram para impressionantes 40 centavos, refletindo uma mudança drástica na percepção de risco. Em poucos dias, cerca de 1,5 bilhão de dólares em títulos foram vendidos, um volume dez vezes maior que o normal, indicando um frenesi no mercado.

Para aqueles que adquiriram esses papéis quando ninguém mais queria, os retornos foram extraordinários, com ganhos que chegaram a 2.567% em casos extremos, comparáveis aos retornos esperados por fundos de risco em startups bem-sucedidas.

O Enorme Problema da Dívida Venezuelana

A Venezuela enfrenta um desafio colossal, com uma dívida total estimada entre 150 bilhões e 170 bilhões de dólares. Desse montante, 60 bilhões de dólares referem-se a títulos internacionais em default, além de empréstimos significativos da China, que atingem 15 bilhões de dólares, e da Rússia, além de indenizações arbitrais para empresas como ConocoPhillips e Crystallex, cujos ativos foram expropriados.

Com um PIB nominal de apenas US$ 82,8 bilhões em 2025, a relação dívida/PIB do país varia entre 180% e 200%, colocando a Venezuela em um patamar semelhante aos casos mais graves de crise de dívida soberana da história recente, como a Grécia em 2020 e a Argentina em 2001.

Expectativas de Reestruturação e Mecanismos Envolvidos

A elevação dos preços dos títulos reflete a crença de que, com Maduro fora do cenário político e os Estados Unidos exercendo influência, surge uma possibilidade real de reestruturação da dívida. O termo-chave aqui é valores de recuperação, que indicam quanto os credores podem esperar receber de volta por cada dólar devido em uma reestruturação.

Analistas especializados projetam que esses valores de recuperação cresceram substancialmente, com estimativas otimistas chegando a 60 centavos por dólar. No entanto, a reestruturação envolveria três elementos essenciais:

  • Corte no valor principal (haircut): Perdoar parte da dívida, como reduzir 100 bilhões de dólares para 50 bilhões.
  • Alongamento dos prazos: Estender o período de pagamento para 20 ou 30 anos, aliviando a pressão anual sobre o orçamento.
  • Emissão de novos títulos: Substituir os antigos por papéis com juros mais baixos, reduzindo o custo do serviço da dívida.

Para tornar a dívida sustentável, a Venezuela precisaria aplicar um haircut de pelo menos 50% no principal. Especialistas projetam um cenário com títulos de 20 anos com cupom em torno de 4,4%, títulos de cupom zero de 10 anos para compensar juros atrasados, e possivelmente warrants petrolíferos, que permitem aos credores receber pagamentos adicionais se a receita do petróleo subir acima de certos patamares.

Obstáculos e Complexidades no Caminho

Apesar das expectativas, as sanções americanas atualmente proíbem a Venezuela de reestruturar sua dívida sem licenças do Tesouro, impedindo negociações formais com o Comitê de Credores, que inclui instituições como Fidelity, Morgan Stanley e Greylock.

Além disso, há a complicação técnica dos holdouts, credores que se recusam a participar de reestruturações, apostando em litígios. Muitos títulos da PDVSA não possuem cláusulas de ação coletiva, exigindo que cada detentor concorde individualmente com o plano, o que pode fragmentar e prolongar as negociações por anos.

O Papel Crucial do Petróleo

Tudo depende fundamentalmente do petróleo. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas do mundo, mas produz menos de 1% da oferta global. Investimentos maciços, estimados entre 110 bilhões e 183 bilhões de dólares, são necessários para reconstruir a infraestrutura petrolífera e gerar receita suficiente para honrar uma dívida reestruturada.

O ex-presidente Donald Trump já sinalizou interesse em investimentos de petrolíferas americanas para restaurar a produção, e há relatos de fundos buscando captar 2 bilhões de dólares para projetos. No entanto, isso exige anos de investimento, estabilidade política e capacidade técnica, fatores que a Venezuela perdeu ao longo do tempo.

Conclusão: Uma Aposta de Alto Risco

Para investidores que compraram títulos venezuelanos quando ninguém queria, a aposta parece ter valido a pena, com ganhos substanciais. No entanto, para quem considera entrar agora, a 0,40 por dólar, a conta é mais complicada.

Se o cenário otimista se confirmar, com recuperação de 45 a 50 centavos por dólar, há espaço para ganhos de 10% a 25%. Mas isso pressupõe um governo legítimo, um programa do FMI, a retomada da produção de petróleo e a ausência de litígios paralisantes.

Em última análise, o mercado não está comprando a economia da Venezuela, mas sim a aposta de que Trump e os Estados Unidos mudarão o jogo. E, como todas as apostas, essa pode dar certo ou resultar em frustrações significativas para os investidores menos cautelosos.