Mercado financeiro desloca preocupação dos juros para sucessão de Powell no Fed
Em uma decisão amplamente antecipada, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa básica de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%. A ferramenta FedWatch, do CME Group, já atribuía 97% de probabilidade a esse desfecho. No entanto, a reunião desta semana ganhou um peso adicional, sendo a primeira aparição pública de Jerome Powell após a revelação de uma investigação criminal do Departamento de Justiça sobre os custos da reforma dos prédios históricos do banco central.
Comunicado cuidadoso e sinais mistos da economia americana
O Comitê Federal de Mercado Aberto optou por uma mensagem meticulosamente calibrada. Reconheceu que a economia dos Estados Unidos segue crescendo em ritmo sólido, um tom mais elevado em comparação com a avaliação anterior de expansão moderada. Simultaneamente, manteve o alerta de que a inflação continua um pouco elevada, uma escolha de palavras que revela mais cautela do que alívio.
Jerome Powell buscou transmitir serenidade, afirmando que a postura atual da política monetária é apropriada para promover avanços tanto em direção ao máximo emprego quanto à meta de inflação de 2%. Os dados econômicos apresentam uma fotografia mista: o consumo das famílias e o investimento das empresas mostram resiliência, mas o setor imobiliário permanece fraco. A taxa de desemprego ficou em 4,4% em dezembro, com criação de vagas modesta, e Powell reconheceu que a demanda por trabalho claramente enfraqueceu.
Inflação acima da meta e expectativas de mercado
A inflação ao consumidor subiu 0,3% em dezembro e fechou 2025 em 2,7%, acima da meta de 2%. Powell admitiu o desconforto, destacando que o processo de desinflação continua, especialmente nos serviços, mas ainda de forma lenta. O mercado reagiu com alívio à decisão, pelo menos temporariamente, com expectativas de inflação implícitas e rendimentos de longo prazo sem indicar estresse relevante.
Para o Bank of America, o FOMC está firmemente em modo de espera, aguardando mudanças no balanço de riscos. Com a política monetária próxima da taxa neutra estimada, não há pressa para ajustes. Especialistas apontam que parte da cautela do Fed decorre da qualidade dos dados, afetados pela recente paralisação do governo federal, o que comprometeu a leitura dos indicadores.
Viés mais duro e mudanças no comunicado
Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, observou que o comunicado trouxe um viés mais duro do que o mercado esperava, afastando a perspectiva de cortes já na próxima reunião. Gustavo Sung, da Suno Research, destacou a retirada de um trecho que apontava aumento dos riscos negativos para o mercado de trabalho, sugerindo uma avaliação mais equilibrada do duplo mandato do Fed.
A atividade econômica segue distante de um cenário recessivo, com o PIB do terceiro trimestre crescendo com força. A projeção do FedWatch indica que o primeiro corte de juros pode ocorrer em junho, com taxas entre 3,25% e 3,50%, e ao fim de 2026, o mercado aposta em taxas próximas de 3%.
Risco institucional: a sucessão de Powell como ponto central
No entanto, o ponto de maior sensibilidade não está nos juros, mas na sucessão de Powell. Com o término de seu mandato previsto para maio, cresce entre investidores a preocupação com o perfil do próximo presidente do Fed. Mais do que o ritmo dos cortes, o mercado passa a precificar o risco de uma mudança no equilíbrio institucional da autoridade monetária.
A possibilidade de uma indicação com viés mais político ou excessivamente dovish levanta dúvidas sobre a independência do banco central, um pilar fundamental para a credibilidade do regime de metas de inflação. Em um ambiente ainda marcado por pressões inflacionárias residuais, qualquer sinal de flexibilização prematura pode reancorar expectativas, pressionar o dólar e elevar a volatilidade dos ativos globais.
Como resume Sung, o Fed está hoje em posição confortável para esperar novos dados. Mas essa tranquilidade pode ser testada nos próximos meses, à medida que a política se aproxima do banco central, colocando a sucessão de Powell no centro das atenções do mercado financeiro.