Reabertura do Estreito de Hormuz não acaba pressão sobre preços do petróleo, dizem analistas
Reabertura de Hormuz não acaba pressão sobre petróleo

Reabertura condicional do Estreito de Hormuz mantém incertezas no mercado de petróleo

O anúncio do Irã sobre a reabertura do Estreito de Hormuz, feito nesta sexta-feira (17), não deve ser suficiente para estabilizar os preços do petróleo nos próximos meses. Analistas do setor energético alertam que as condições específicas impostas por Teerã e as persistentes tensões diplomáticas com Washington continuarão a gerar volatilidade nas cotações da commodity.

Queda imediata, mas cenário de longo prazo permanece incerto

A declaração iraniana provocou uma queda acentuada nos preços do petróleo ainda nesta sexta-feira. O barril chegou a cair para a casa dos US$ 86, atingindo seu menor nível em mais de um mês. O Brent, referência internacional com vencimento em junho, fechou o dia a US$ 91,57, valor mais baixo desde 10 de março, com uma queda expressiva de 7,87%.

No entanto, especialistas ressaltam que essa redução pode ser temporária. "A abertura do estreito de Hormuz é um importante passo para normalizar o trânsito pela via navegável. Mas a reabertura é limitada em escopo", afirmou James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics.

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Condições específicas dificultam normalização do fluxo

O Ministério de Relações Exteriores do Irã anunciou que reabriria o trânsito marítimo pelo estreito - por onde passa aproximadamente 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito - mas estabeleceu uma condição fundamental: apenas navios com autorização iraniana poderiam atravessar a região.

Essa exigência não é aceita pelos Estados Unidos, que mantêm seu bloqueio marítimo na área. Abbas Araghchi, chanceler do Irã, declarou em postagem na rede social X: "A passagem de todos os navios comerciais pelo estreito de Hormuz foi declarada totalmente aberta para o período restante do cessar-fogo".

Um alto funcionário do regime iraniano ouvido pela Reuters acrescentou que todos os navios comerciais, incluindo embarcações norte-americanas, poderiam navegar pelo estreito, desde que seus planos fossem coordenados com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

Empresas de transporte mantêm cautela

As principais empresas do setor de transporte marítimo demonstraram prudência diante do anúncio. A Hapag-Lloyd, uma das maiores companhias do segmento, informou que ainda está avaliando a situação. Um porta-voz da empresa declarou à Reuters: "Por enquanto, ainda estamos evitando passar pelo estreito. Provavelmente passaremos, mas ainda é cedo para confirmar".

Carsten Brzeski, diretor global de macroeconomia do ING, analisou: "Seguradoras e armadores ainda podem hesitar em enviar navios, o que significa que, mesmo que teoricamente aberto, o tráfego só aumentará gradualmente".

Impacto nos mercados financeiros

A queda nas cotações do petróleo pressionou a Bolsa brasileira, que recuou 0,55%, fechando a 195.733 pontos. O dólar apresentou leve desvalorização de 0,18%, cotado a R$ 4,983.

As ações da Petrobras foram particularmente afetadas:

  • Ações preferenciais caíram 4,85%, chegando a recuar 7,6% na mínima do dia
  • Prio e PetroRecôncavo registraram quedas superiores a 4% cada
  • Brava recuou 6%

Bruno Cordeiro, especialista em energia da StoneX, destacou: "A retomada dos fluxos de petróleo e derivados depende de condições de segurança e de sinalizações mais firmes. Os próximos dias serão determinantes para entender a extensão dessa decisão do Irã".

Cenário internacional dividido

O anúncio impactou diferentemente os mercados globais:

Quedas na Ásia:

  • Índice CSI300 (Xangai e Shenzhen): -0,17%
  • SSEC (Xangai): -0,1%
  • Tóquio: -1,75%
  • Hong Kong: -0,89%
  • Seul: -0,55%

Altas na Europa e EUA:

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  • Euro STOXX 600: +1,6%
  • Frankfurt: +2,25%
  • Londres: +0,73%
  • Paris: +1,97%
  • Madri: +2,18%
  • Milão: +1,75%
  • Dow Jones: +1,79%
  • Nasdaq: +1,52%
  • S&P 500: +1,20%

Perspectivas para os próximos meses

Analistas concordam que a normalização completa do fluxo pelo Estreito de Hormuz deve ser um processo gradual que pode levar meses. Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, observou: "As falas de Donald Trump sobre o bloqueio e a tensão persistente com o Irã mantêm o mercado em modo de cautela, reduzindo a confiança de que a trégua seja duradoura".

André Valério, economista sênior do Inter, complementou: "Apesar de o Irã ter anunciado a reabertura do estreito, ela ocorre em condições muito específicas. Uma normalização do fluxo ainda parece distante e podemos ver o preço do petróleo pressionado devido às condições adversas de oferta".

Para o Brasil, especialistas alertam que uma reabertura definitiva tende a pressionar os preços do petróleo e impactar as receitas de exportação, o que pode continuar afetando negativamente as ações de empresas do setor petrolífero nacional.