Movimentações suspeitas nos mercados antecedem anúncios de Trump e geram investigações
Mercados movimentam-se antes de anúncios de Trump e geram suspeitas

Movimentações atípicas nos mercados antecedem anúncios de Trump e levantam suspeitas

Cerca de quinze minutos antes de o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a suspensão dos ataques à infraestrutura energética do Irã, na última segunda-feira, os mercados registraram uma movimentação abrupta nos contratos de petróleo. Nesse curto intervalo, investidores negociaram centenas de milhões de dólares da commodity, antecipando-se à publicação do republicano e evitando perdas com a posterior queda nos preços.

O episódio reacendeu o escrutínio no país por repetir um padrão observado durante sua presidência, em que investidores adotam comportamentos atípicos pouco antes de anúncios oficiais sobre temas como operações militares e tarifas comerciais. A prática irregular, associada ao insider trading, ocorre quando investidores operam com base em informações privilegiadas que deveriam ser confidenciais, negociando de forma a lucrar com a antecipação de um anúncio oficial.

Casos se espalham por diversos segmentos financeiros

Além dos contratos futuros de petróleo, atividades cronometradas deste tipo também surgiram em outros segmentos financeiros nos últimos meses, incluindo índices de ações como o S&P 500 e o Nasdaq, mercados de apostas, operações de câmbio e até criptomoedas. Os casos levantaram suspeitas nos Estados Unidos sobre possíveis vazamentos de informação do governo ao mercado, inclusive o brasileiro.

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Não há evidências concretas de que a Casa Branca esteja repassando informações confidenciais para beneficiar investidores ou suavizar impactos. Especialistas apontam que o comportamento súbito e as frequentes mudanças de direção de política de Trump acabam fornecendo sinais ao mercado, que interpreta esses padrões e tenta antecipar decisões políticas.

No caso do ex-presidente americano, que anuncia decisões oficiais diretamente nas redes sociais e sem aviso prévio, os mercados passaram a monitorar diretamente sua comunicação online – fenômeno apelidado nos EUA de "Volfefe Index". Na prática, suas postagens têm potencial para mover mercados globais e estimular comportamentos preditivos, inclusive em bolsas europeias.

Exemplos específicos de movimentações suspeitas

No último sábado, Trump havia prometido destruir a infraestrutura energética do Irã se o país não permitisse o tráfego de navios no Estreito de Ormuz em quarenta e oito horas. Teerã, porém, não cedeu à ameaça, o que levou o preço da commodity a subir mais uma vez nas primeiras horas de segunda-feira, com a abertura das bolsas na Ásia.

Às sete horas e quatro minutos daquele dia, Trump subiu seus primeiros posts indicando que recuaria dos ataques. Os preços do petróleo bruto Brent caíram de cento e catorze dólares por barril para noventa e sete dólares em poucas horas. No entanto, minutos antes, entre seis horas e quarenta e nove minutos e seis horas e cinquenta e um minutos do mesmo dia, mais de setecentos e sessenta milhões de dólares em contratos futuros de petróleo foram negociados.

O jornal americano Wall Street Journal também indica que um movimento similar ocorreu no índice de ações americano S&P 500, o que levou investidores a contornarem perdas. Na comparação com semanas anteriores, o movimento pode ser considerado atípico para uma segunda-feira, indicam observadores.

Apostas em mercados de previsão também geram lucros

A especulação sobre uso de informação privilegiada também se espalhou para os mercados de previsão, que permitem aos usuários apostar na probabilidade de milhares de eventos globais. A empresa de análise Bubblemaps afirmou que seis contas lucraram cerca de um milhão e duzentos mil dólares com dezenas de apostas feitas na plataforma Polymarket, prevendo corretamente ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

As apostas foram registradas horas antes de os ataques começarem. Segundo a Bubblemaps, um único apostador apresenta um padrão recorrente de apostas certeiras. Ele também lucrou em outubro de 2024, quando acertou a data dos ataques israelenses contra o Irã, com aposta realizada novamente poucas horas antes de seu início.

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Preocupações políticas e investigações em andamento

Senadores democratas também manifestaram preocupação, em vinte e três de fevereiro, de que os mercados de previsão estariam violando regras ao criar incentivos para fomentar conflitos ou divulgar informações sigilosas, depois que um trader obteve cerca de quatrocentos e dez mil dólares apostando na queda do líder venezuelano Nicolás Maduro.

Em dois de janeiro, Trump autorizou a ação que levou à captura de Maduro, em Caracas. Embora a notícia da operação só tenha sido divulgada posteriormente, uma série de apostas na queda do venezuelano foram feitas na Polymarket entre dezembro e janeiro. O que gerou suspeita foi a identificação de que a última aposta fora registrada menos de uma hora antes de os militares serem autorizados pela Casa Branca a prosseguir com a intervenção na Venezuela.

Impactos em criptomoedas e no mercado brasileiro

Em dez de outubro de 2025, foi a vez de movimentações atípicas no mercado de criptomoedas levarem a especulações sobre informações privilegiadas. Na ocasião, Trump anunciou tarifas adicionais de cem por cento aos produtos chineses, levando a uma liquidação generalizada no mercado de criptomoedas, como o bitcoin, que chegou a cair dezenove bilhões de dólares.

Segundo análise do Wall Street Journal, porém, duas contas haviam apostado contra o mercado minutos antes da publicação do ex-presidente, lucrando cerca de cento e sessenta milhões de dólares. As apostas foram alavancadas para lucrar com um possível derretimento no preço das criptomoedas e foram executadas na plataforma Hyperliquid.

No Brasil, anúncios de Trump também geraram suspeitas de que informações privilegiadas chegaram ao mercado. A Advocacia-Geral da União identificou movimentações cambiais atípicas em nove de julho de 2025, quando o americano afirmou que aplicaria uma tarifa de cinquenta por cento sobre produtos brasileiros.

Uma reportagem mostrou que menos de três horas antes de Trump publicar uma carta em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sobretaxar o Brasil, operadores compraram entre três e quatro bilhões de dólares ao custo de cinco reais e quarenta e seis centavos o dólar. Após a publicação da Casa Branca, o câmbio subiu a cinco reais e sessenta centavos. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou a abertura de uma investigação sobre o caso.

A Casa Branca afirma reiteradamente que não tolera qualquer autoridade que se "beneficie ilegalmente de informações privilegiadas". Stephen Innes, analista da SPI Asset Management, destacou à agência de notícias AFP: "O que chama atenção aqui não é apenas o tamanho das operações, mas o timing. Traders não são clarividentes. Quando as posições mudam minutos antes de um anúncio capaz de mexer com o mercado, isso geralmente significa que alguém está agindo com informações antes de a notícia vir a público".