Fed mantém juros dos EUA inalterados em 3,5% a 3,75% ao ano sob pressão de Trump
Fed mantém juros dos EUA inalterados sob pressão de Trump

Federal Reserve mantém taxa de juros inalterada nos Estados Unidos

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, anunciou nesta quarta-feira (28) a manutenção da taxa de juros do país na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Esta decisão representa o menor patamar observado desde setembro de 2022 e interrompe um ciclo de três cortes consecutivos promovidos pela instituição monetária.

Decisão alinhada com expectativas do mercado financeiro

A medida veio completamente em linha com as projeções do mercado financeiro, que já antecipava a estabilização das taxas após a redução de 0,25 ponto percentual realizada na reunião anterior, em 10 de dezembro. O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) justificou a decisão destacando que a geração de empregos permaneceu em níveis modestos, enquanto a taxa de desocupação apresentou sinais de estabilização.

Em comunicado oficial, o colegiado afirmou que "a incerteza sobre as perspectivas econômicas permanece elevada" e que "a inflação segue um pouco alta". O texto ainda ressaltou que "o Comitê está atento aos riscos em ambos os lados de seu duplo mandato", referindo-se aos objetivos de estimular o emprego e controlar a inflação simultaneamente.

Pressão política de Donald Trump sobre o Fed

Esta primeira decisão sobre os juros em 2026 ocorre em um contexto de crescente pressão política exercida pelo presidente Donald Trump sobre a autoridade monetária americana. O republicano tem realizado acusações diretas contra o atual chefe do Fed, Jerome Powell, cujo mandato se encerra em maio deste ano.

Trump já declarou publicamente que anunciará em breve um substituto para Powell e deixou claro que o apoio a reduções nas taxas de juros será um requisito fundamental para seu indicado. Entre os nomes cotados para assumir a presidência da instituição estão:

  • Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca
  • Christopher Waller, governador do Fed
  • Michelle Bowman, governadora do Fed

O cenário político se complica ainda mais com o julgamento em curso na Suprema Corte sobre a tentativa de Trump demitir a diretora Lisa Cook. Caso a Justiça americana confirme a demissão, o presidente terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria do Fed, ampliando significativamente sua influência sobre as decisões monetárias futuras.

Conflito sobre reforma da sede do Fed

As tensões entre a Casa Branca e o banco central atingiram novo patamar recentemente quando Trump ameaçou apresentar uma acusação criminal contra Jerome Powell. O motivo seria uma reforma de US$ 2,5 bilhões (equivalente a R$ 15,6 bilhões) na sede da instituição em Washington, que parlamentares compararam ao Palácio de Versalhes devido a supostos gastos luxuosos.

O caso levou à abertura de uma investigação criminal por procuradores federais, enquanto Powell defendeu veementemente o projeto, afirmando que as acusações são "imprecisas e enganosas". Segundo o presidente do Fed, a reforma foi financiada pela própria instituição e visa modernização com redução de custos no longo prazo.

Contexto econômico e perspectivas futuras

A decisão desta quarta-feira marca a nona reunião do Fed desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025. Durante este período, ocorreram três cortes de juros em meio a um cenário econômico adverso, agravado pela guerra tarifária promovida pelo governo republicano.

Economistas e agentes de mercado têm destacado consistentemente os impactos das sobretaxas aplicadas por Trump na economia americana. Um dos principais receios tem sido o aumento da inflação ao consumidor, fator que levou o banco central a adiar sucessivas vezes a redução dos juros ao longo do último ano.

No segundo semestre de 2025, dados indicaram desaceleração da economia americana com um mercado de trabalho mais fraco, abrindo espaço teórico para cortes adicionais. Contudo, a inflação permaneceu acima da meta estabelecida de 2%, criando divisões internas dentro do próprio Fed sobre o caminho monetário ideal.

Reflexos da política monetária americana no Brasil

A manutenção das taxas de juros em patamares elevados nos Estados Unidos gera efeitos significativos sobre a economia brasileira. Com os rendimentos dos títulos públicos americanos (Treasuries) mantendo atratividade, ocorre um movimento natural de direcionamento de recursos estrangeiros para o mercado norte-americano.

Este fluxo financeiro tende a:

  1. Fortalece o dólar em relação a outras moedas, incluindo o real
  2. Reduzir o volume de investimentos estrangeiros direcionados ao Brasil
  3. Aumentar a pressão inflacionária via câmbio no mercado brasileiro

Consequentemente, cresce a pressão para que o Banco Central do Brasil mantenha a taxa Selic em patamares elevados por mais tempo, dificultando o processo de desinflação e afetando o ritmo de atividade econômica nacional. O Comitê de Política Monetária (Copom) precisará considerar cuidadosamente estes fatores externos em suas próximas decisões.

Próximos passos e monitoramento econômico

No comunicado divulgado após a reunião, o FOMC afirmou que "continuará monitorando as implicações das novas informações para as perspectivas econômicas" e que está "preparado para ajustar a política monetária, se necessário". As avaliações futuras considerarão uma ampla gama de indicadores, incluindo:

  • Condições do mercado de trabalho americano
  • Pressões inflacionárias e expectativas de inflação
  • Desenvolvimentos financeiros e internacionais
  • Impactos das políticas comerciais do governo

Enquanto isso, a batalha política entre a Casa Branca e o Federal Reserve deve se intensificar nas próximas semanas, com a indicação do sucessor de Jerome Powell e a decisão da Suprema Corte sobre o caso Lisa Cook definindo novos rumos para a autoridade monetária mais influente do mundo.