O novo programa Desenrola 2.0 já está em operação com a participação dos principais bancos brasileiros, como Bradesco, Nubank, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. A iniciativa permite a redução de até 90% das dívidas por meio do uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). No entanto, conseguir o desconto máximo depende de fatores que não estão sob o controle do endividado.
Critérios para o desconto de até 90%
Os especialistas explicam que os percentuais de desconto são definidos pelas próprias plataformas dos bancos. Humberto Aillon, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), destaca que existem diversos critérios para estabelecer os abatimentos. Ainda assim, as instituições financeiras devem aplicar, no mínimo, o desconto de 30%.
Marcus Novais, da Private Investimentos, detalha que os descontos entre 30% e 90% do Desenrola 2.0 são calibrados caso a caso. Os fatores considerados incluem o tempo de atraso, o tipo de crédito, a probabilidade de recuperação da dívida na visão do banco e o perfil do cliente. “Quanto mais antiga e provisionada estiver a dívida, maior tende a ser o desconto, porque o banco já reconheceu boa parte daquele valor como perda no balanço. O abatimento não é um presente: ele transforma um prejuízo provável em um recebimento parcial, o que explica por que as instituições aceitam renegociar”, afirma Novais.
Por que o governo oferece descontos de até 90%?
O programa Desenrola surge em meio ao forte endividamento das famílias, que tem tornado o cenário do crédito mais restritivo em todo o país. Para Aline Maciel, diretora da Serasa, o programa não deve fazer milagre sobre a curva de inadimplência no Brasil. Segundo dados da Serasa, a inadimplência atingiu recorde em março, alcançando 82,8 milhões de brasileiros, alta de 1,35% em relação a fevereiro.
De acordo com a diretora, o programa tende a suavizar a curva da inadimplência, mas não deve alterar a trajetória do indicador diante do cenário de juros elevados. “O Desenrola 2.0 não fará milagre. O ideal seria um programa que promovesse educação financeira para as classes menos favorecidas da sociedade. Assim, a mudança na inadimplência seria estrutural”, afirma Aline Maciel.
Perfil das dívidas e inadimplência
Dados da Serasa referentes a abril mostram que as dívidas estão concentradas nos bancos, responsáveis por 27,3% do total. Outros 21% estão ligados a contas básicas, como água e luz. A empresa explica que 46% da inadimplência está associada à falta de educação financeira, enquanto 38% decorrem da perda de renda.
Segundo a executiva da Serasa, o ciclo de crédito pós-pandemia, impulsionado pelo surgimento das fintechs, ampliou o acesso ao crédito para as classes D e E. Com isso, 73% das pessoas endividadas com bancos afirmam ter dívidas no cartão de crédito. “O número é composto majoritariamente por pessoas de menor renda, que têm utilizado o cartão de crédito como complemento da renda”, diz Aline Maciel.
Perspectivas para o Desenrola 2.0
Especialistas apontam que o programa pode trazer alívio temporário, mas a solução de longo prazo depende de educação financeira e políticas de geração de renda. A Serasa reforça que a renegociação de dívidas é uma ferramenta importante, mas não substitui a necessidade de planejamento financeiro.



