Mercado financeiro torce por inflação e juros altos em cenário de guerra
Mesmo quando aparenta sereno e confiável, o mercado financeiro não perde uma oportunidade para especular e tirar proveito dos piores cenários. A escalada do conflito entre Israel e Estados Unidos contra o Irã, que após anunciar Mojtaba Khamenei como novo líder espiritual, intensificou ataques a países árabes com bases militares norte-americanas, fez o barril de petróleo Brent para maio ultrapassar os US$ 100.
Impacto imediato nos mercados e reação brasileira
Esse movimento foi suficiente para espalhar temores nos mercados europeus, com reflexos diretos no Brasil, de que os juros seriam mantidos em patamares elevados ou até aumentados para conter a inflação. Antes da guerra, a previsão geral era de queda nas taxas. Contudo, a alta do petróleo não se sustentou por completo. Às 12:45 (horário de Brasília), o contrato era negociado a US$ 98,54, com alta de 5,84%.
Os contratos futuros de junho a dezembro de 2026 mostravam quedas sucessivas, indicando que os agentes que negociam petróleo – cujos maiores compradores são China, Índia, Japão e Alemanha – não acreditam na duração prolongada do conflito ou na extensão de suas sequelas econômicas. O contrato de junho era cotado a US$ 92,71; o de setembro a US$ 80,65; e o de dezembro a US$ 75,57.
Petrobras e o cenário doméstico do petróleo
No Brasil, a Petrobras extrai petróleo do pré-sal, que abastece 70% das cargas de suas refinarias, operando com 91% da capacidade instalada a um custo abaixo de US$ 21 por barril, incluindo afretamento de equipamentos, royalties e participações especiais em impostos. Isso cria uma margem de lucro enorme, já confortável com o barril a US$ 60 e que se torna ainda mais folgada para a companhia em momentos de alta.
O comportamento das ações da Petrobras e de pequenas companhias privadas de petróleo, que basicamente só extraem e exportam a custos mais altos, mostra apostas no ganho de margens com a valorização do Brent. As ações da Prio disparavam quase 6% na B3 por volta das 13 horas, contra cerca de 4,5% das ações ON e PN da Petrobras. Em comparação, as ações da Brava subiam 1,88% e as da Petrorecôncavo, 1,32%.
Pressões por reajustes e dilema inflacionário
A Petrobras, no entanto, vem sendo pressionada a definir se deve ou não elevar os preços da gasolina e do diesel. Surgem questionamentos sobre uma possível saudade especulativa do PPI (Preço de Paridade de Importação), criado no governo Temer, que gerou volatilidade nas cotações e contribuiu para a greve dos caminhoneiros em 2017-2018. Ou seriam os importadores independentes, responsáveis por 20% a 25% do diesel e do GLP, com margens comprimidas, pressionando a estatal a alimentar a fogueira inflacionária?
Para gargalhadas dos especuladores, o dólar não disparava – ao contrário, caía 0,62% a US$ 5,2130 às 13:03 –, revelando uma clara especulação de parte do mercado interessada em arbitragens com juros e em alardear nas mídias financeiras projeções de que não se espera baixa da Selic em 15%.
Projeções do mercado e riscos inflacionários
Na Pesquisa Focus apurada pelo Banco Central até sexta-feira, 6 de março, e divulgada hoje, o mercado esperava duas baixas de 0,50% nas reuniões do Comitê de Política Monetária, em 18 de março e 29 de abril, levando a Selic a 14,00% ao ano. Uma leitura combinada das projeções para o IPCA e os preços administrados, que incluem expectativas para gasolina e diesel, não revelava temores imediatos, com o IPCA previsto em 3,91%/3,92% contra 3,67% para preços administrados em 2026.
Os preços por atacado estão em queda e seguram a inflação, mas um reajuste na gasolina – o item mais pesado entre os 377 pesquisados pelo IBGE no IPCA – ou no diesel, que impacta o frete e pressionaria os transportes públicos, poderia desencadear uma escalada inflacionária. O governo Lula tem proposta para transporte grátis, mas a turbulência da guerra acirra os debates.
Lições do passado e desafios atuais
Em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, os preços dispararam e o PPI provocou reajustes mensais. Bolsonaro demitiu vários presidentes da Petrobras, sem sucesso, e a inflação escalou. No desespero, Paulo Guedes cortou impostos federais e estaduais (ICMS) sobre combustíveis, energia elétrica residencial e comunicações de julho a dezembro de 2022, criando um rombo nas contas públicas, mas não se reelegeu. O ICMS só foi zerado com os estados em janeiro deste ano.
Lula agora enfrenta o dilema, mas não deve ceder às pressões do mercado. Precisa ter o mesmo sangue frio de quando o tarifaço parecia emparedar o Brasil e o país reagiu com altivez, recuando nas tarifas com Trump. Uma nova agenda mais ampla sobre o tema e outros assuntos estratégicos entre Brasil e Estados Unidos aguarda uma janela de oportunidade – e de paz – para ser aberta em Washington.
