Inflação brasileira depende do dólar para voltar à meta, analisa economista
Em sua mais recente análise, o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, aborda os desafios enfrentados pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para controlar a inflação futura. O especialista destaca que, como a taxa de juros não afeta a inflação passada, o foco deve estar sempre nas projeções futuras, uma tarefa complexa e cheia de incertezas.
Expectativas e mercado de trabalho como fatores-chave
Schwartsman aponta dois elementos de particular relevância para a inflação futura: as expectativas de inflação e o estado do mercado de trabalho. Ele explica que, como muitos preços são reajustados infrequentemente, sua formação é diretamente influenciada pelo que se espera da inflação. No caso dos salários, por exemplo, se a expectativa for de 10% de inflação nos próximos doze meses, os reajustes serão muito diferentes de quando se antecipa apenas 1%.
Salários e preços sobem mais quando as expectativas de inflação são elevadas, o que desmente a ideia de que uma meta de inflação apertada seria responsável por juros altos. Se o governo anunciasse uma meta mais alta, isso provavelmente contaminaria as expectativas, elevando preços e salários e dificultando a tarefa do Banco Central, em vez de reduzir as taxas de juros.
Mercado de trabalho aquecido pressiona preços
O atual cenário do mercado de trabalho no Brasil é outro fator crítico. A taxa de desemprego, já ajustada à sazonalidade, caiu para pouco mais de 5% no final do ano passado, ante quase 15% no terceiro trimestre de 2020. O rendimento médio do trabalho cresceu cerca de 9% em 2025 e quase 10% no final do ano, indicando uma disputa acirrada por mão de obra.
Como a produtividade, com exceção da agricultura, não cresce, esses aumentos se traduzem em pressões sobre os preços finais. Onde não há competição externa, essas pressões aparecem na inflação. Por exemplo, o aumento de preços de serviços atingiu 5,9% no passado, e nos serviços que mais utilizam trabalho, o aumento chegou a 6,8% em 2025, ante 5,5% em 2024.
Papel crucial do dólar na redução da inflação
O êxito na redução da inflação em geral, de 4,8% para 4,3%, resultou em larga medida da valorização do real frente ao dólar. Parte disso veio da taxa de juros, mas a contribuição mais significativa veio da perda de valor global do dólar. Em dezembro de 2024, 1 euro comprava 1,046 dólar; um ano depois, o mesmo euro comprava 1,174 dólar, uma desvalorização de 12%, praticamente igual à observada aqui (12,7%).
Assim, a convergência da inflação para a meta de 3% — prevista para o final de 2027 pelo Banco Central — dependerá crucialmente do que acontecer com o dólar. Sem essa "gentileza" do dólar, a inflação dificilmente voltará à meta, certamente não em 2026, conforme análise publicada na edição de 20 de fevereiro de 2026 da revista Veja.
Schwartsman conclui que, enquanto fatores internos como expectativas e mercado de trabalho continuam a pressionar os preços, a trajetória da inflação brasileira está intimamente ligada às flutuações da moeda americana, destacando a importância de monitorar o cenário internacional para entender o futuro econômico do país.



