Impacto da guerra no preço dos combustíveis pode demorar até seis meses para chegar ao Brasil
O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy, afirmou que o impacto da guerra no Oriente Médio nos preços pagos pelo consumidor brasileiro por combustíveis derivados do petróleo, como gasolina e diesel, pode demorar a chegar. A avaliação foi feita em entrevista à Agência Brasil, após forte alta do petróleo nos últimos dias, desde o início dos ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã e das retaliações iranianas.
Estoques e contratos amortizam efeito imediato
Ardenghy explicou que toda refinaria mantém um estoque de petróleo, o que é um dos motivos para que a mudança não ocorra da noite para o dia. "É um processo longo, que pode durar até seis meses para acontecer. Não haverá nenhuma mudança de patamar de preço a curto prazo, inclusive, para o consumidor brasileiro", declarou.
O porta-voz do instituto que representa a indústria petrolífera no Brasil detalhou que, se o petróleo permanecer em patamar elevado, as refinarias gradualmente começarão a comprar o produto mais caro. "Na medida em que esse petróleo mais caro chegar às refinarias, elas também, com um certo tempo, tenderão a transferir esse preço para os seus contratos novos, porque nos contratos já firmados, elas garantem o preço anterior", acrescentou.
Incerteza no conflito e alternativas logísticas
O presidente do IBP apontou que a incerteza sobre o futuro do conflito é um fator que pode retardar o impacto nos preços. "Altos patamares do preço do petróleo dependem da continuidade ou não do conflito armado, do bloqueio do Estreito de Ormuz, da disseminação do conflito para outros países do Oriente Médio. Então, ainda não se tem segurança de que isso vai acontecer", explicou.
Sobre o bloqueio do Estreito de Ormuz, passagem crucial para exportações de petróleo da região, Ardenghy ponderou que o fechamento não interrompe todo o fluxo, pois há rotas alternativas. Ele citou que:
- O Iraque pode bombear petróleo por meio da Turquia.
- A Arábia Saudita tem oleodutos para o Mar Vermelho.
- Os Emirados Árabes Unidos e o próprio Irã podem encontrar outras vias.
"Há algumas alternativas, não para garantir todo aquele volume que passa no Estreito de Ormuz, mas, pelo menos, para uma parcela importante. Portanto, não haverá mudança de patamar de preço de modo estável, no mínimo, pelos próximos 60 a 90 dias", avaliou.
Brasil como ator relevante no mercado internacional
Ardenghy destacou que o Brasil já é um importante produtor de petróleo, com produção de 3,8 milhões de barris por dia em 2025 e exportação de 1,7 milhão de barris. "Somos atores importantes e podemos inclusive contribuir com essa falta de petróleo ou essa escassez que venha do Oriente Médio e compensar com a nossa produção atual e a futura", afirmou.
O executivo acredita que o conflito pode levar a uma reorientação dos fluxos globais de comércio de petróleo e gás natural. "Os países muito dependentes do Oriente Médio, mesmo que as coisas se acalmem por lá, vão procurar diversificar as suas fontes de suprimento. Especialmente, os países da Ásia, como o Japão, a Coreia, a China e a Índia", destacou.
Nesse cenário, o presidente do IBP vê espaço para o Brasil evoluir no mercado. "Somos um produtor confiável de petróleo, temos a presença, no Brasil, de grandes empresas internacionais, a presença também da Petrobras como uma empresa com muita experiência", indicou. Ele ressaltou a necessidade de manter a atividade petrolífera e a pesquisa geológica para garantir segurança energética e gerar divisas com exportações.
