Conflito no Oriente Médio pressiona setores estratégicos da economia nacional
As consequências da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã se estendem para além das fronteiras do país persa, afetando setores específicos da economia brasileira. Embora o Brasil não esteja entre os mais prejudicados globalmente, atividades que dependem fortemente de combustíveis ou mantêm comércio relevante com o Oriente Médio enfrentam vulnerabilidades significativas.
Alta do petróleo e custos logísticos em alerta
O setor logístico brasileiro monitora atentamente os movimentos do petróleo, que impactam diretamente os custos de combustíveis para transporte de cargas. O petróleo Brent, referência mundial, disparou de 72 para mais de 80 dólares por barril em menos de três dias após a retomada dos mercados, refletindo a instabilidade gerada pelo conflito.
A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) já pedia reajustes no diesel antes da guerra, com defasagem de preços que pressionava a Petrobras. Em relatório de 26 de fevereiro, a entidade propôs aumento de 52 centavos por litro para zerar a diferença.
O economista Maurício Nakahodo, especialista em commodities, avalia que um reajuste do diesel pela Petrobras pode ocorrer nos próximos 30 dias, mas a volatilidade do mercado exige cautela. Se confirmado, o aumento elevaria os custos logísticos e, consequentemente, as tarifas de frete em todo o país.
Estreito de Ormuz e ameaças às exportações
O bloqueio ao Estreito de Ormuz, ameaçado pelo Irã, representa um dos maiores impactos econômicos do conflito. A redução do tráfego marítimo e a suspensão de coberturas de seguro por seguradoras elevam os custos de frete e comprometem o comércio com o Oriente Médio.
O agronegócio exportador brasileiro é particularmente afetado, pois a região é destino relevante para produtos como:
- Carne bovina e frango
- Açúcar, soja e milho
- Fertilizantes e insumos agrícolas
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que quase 35% das exportações de carne de frango do Brasil vão para o Oriente Médio, movimentando 3 bilhões de dólares anuais. No caso do milho, 32% das vendas brasileiras têm a região como destino, totalizando 2,7 bilhões de dólares.
O Irã, por sua vez, é o principal comprador de milho brasileiro, concentrando 23% das vendas do grão e quase 68% de tudo que o Brasil exporta para o país. Analistas destacam que as vendas podem ser redirecionadas, mas a duração do conflito será determinante para avaliar impactos, especialmente porque as entregas ao Irã se concentram no segundo semestre por razões sazonais.
Dependência de fertilizantes e incertezas futuras
Outro ponto crítico é a cadeia de fertilizantes e insumos agrícolas. O Brasil importa fortemente esses produtos, com países do Oriente Médio sendo fornecedores-chave de fertilizantes nitrogenados como a uréia, que depende do gás natural para produção.
Em 2025, das importações brasileiras do Oriente Médio no valor de 7,1 bilhões de dólares, 2,2 bilhões foram destinados a fertilizantes, representando mais de 14% das importações nacionais dessa classe. A guerra tem potencial para encarecer significativamente esses insumos, dependendo de sua duração e intensidade.
Em resumo, enquanto o Brasil não está no epicentro do conflito, setores estratégicos como logística e agronegócio enfrentam pressões imediatas e incertezas prolongadas, com reflexos que podem se estender por meses ou até anos, conforme a evolução da guerra no Irã.
