Gasolina a R$ 3 na fronteira venezuelana atrai brasileiros em busca de economia
Um posto de combustíveis na Venezuela tem se tornado ponto de atração para motoristas brasileiros que buscam economizar no abastecimento de seus veículos. Localizado em Santa Elena de Uairén, cidade fronteiriça com o Brasil, o estabelecimento oferece gasolina a preços significativamente inferiores aos praticados no lado brasileiro, especialmente em Pacaraima, no Norte de Roraima.
Diferença de preços chama atenção na fronteira
Nesta sexta-feira (30), o litro da gasolina era vendido a R$ 6,30 no posto venezuelano, valor que representa uma economia de R$ 1,50 em comparação com os postos de Pacaraima. Porém, o aspecto mais impressionante ocorreu no dia da reabertura do estabelecimento, quando o combustível chegou a ser comercializado por apenas R$ 3 o litro – quase três vezes menos que o preço brasileiro na região fronteiriça.
O posto, que opera com quatro bombas de abastecimento da PDVSA (empresa estatal de petróleo da Venezuela), tem registrado filas de veículos com placas brasileiras, evidenciando o interesse dos motoristas pela economia oferecida.
Especialistas explicam motivos dos preços baixos
Para compreender essa disparidade de valores, especialistas ouvidos pelo g1 apontam dois fatores principais que mantêm os preços venezuelanos em patamares tão reduzidos:
- Alta produção petrolífera: A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, concentrando aproximadamente 17% das reservas globais, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris.
- Subsídio governamental: O governo venezuelano mantém um forte programa de subsídios para combustíveis, bancando parte dos custos para manter preços acessíveis à população.
Fábio Martinez, economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Roraima (Fecomércio), explica que "antigamente, quando a Venezuela não passava por essa crise econômica, a gasolina lá era centavos de real". Embora o subsídio tenha diminuído com o tempo, ainda existe um apoio significativo do governo que mantém os preços artificialmente baixos.
Política de preços com peso político e econômico
João Jarochinsk, professor e pesquisador de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima, destaca que a política de preços na Venezuela segue parâmetros voltados ao mercado interno e possui um peso político considerável, associado ao discurso de soberania nacional.
"O governo venezuelano mantém os preços domésticos em patamares inferiores aos praticados no mercado internacional, inclusive os que próprio país pratica na venda de petróleo e seus derivados no mercado internacional", afirma o especialista. Essa estratégia visa evitar que os combustíveis atuem como vetor adicional de inflação em um país que enfrentou níveis inflacionários elevados nos últimos anos.
Martinez exemplifica: "É como se o barril de petróleo estivesse cotado a 60 dólares no mercado, mas a estatal vendesse internamente por 30 dólares, justamente para baratear o preço final".
Contraste com a realidade brasileira
Enquanto na Venezuela os preços são determinados por decisões governamentais sem relação direta com a cotação global do petróleo, no Brasil a realidade é bastante diferente. Victor Del Vecchio, advogado e mestre em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP), explica que "no Brasil, apesar de termos robustos investimentos estatais na indústria do combustível, o preço pago na bomba obedece a uma lógica de mercado de oferta e procura".
O especialista detalha que o valor final ao consumidor brasileiro leva em conta:
- Custos de produção
- Preço do petróleo no mercado internacional
- Tributação federal e estadual
No Brasil, impostos como a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) são embutidos no preço final pago pelos consumidores, contribuindo para a diferença significativa em relação aos valores venezuelanos.
Desafios na distribuição venezuelana
Apesar dos preços atraentes, Del Vecchio pondera que a Venezuela enfrenta problemas sérios na produção e distribuição local de combustíveis. "É muito comum na Venezuela que, nas principais cidades, postos fiquem dias sem combustível e, quando há reabastecimento, longas filas são formadas para que a população possa comprar", relata o especialista.
A Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria de Roraima acompanha o movimento de reabertura do posto de combustível na fronteira. A expectativa é de que o abastecimento continue, mas essa continuidade depende das condições da estrada para a chegada dos caminhões-tanque com combustível até o posto que tem atraído tantos brasileiros.
Enquanto os motoristas brasileiros aproveitam a oportunidade de economizar, a situação ilustra as diferentes políticas econômicas e realidades de abastecimento entre os dois países vizinhos, com a Venezuela utilizando seus recursos petrolíferos como instrumento de política interna, mesmo enfrentando desafios logísticos significativos.