Extinção de PIS, Cofins e IPI em 2026 acaba com R$ 40 bilhões em benefícios fiscais
Fim de impostos extingue R$ 40 bi em benefícios fiscais em 2026

Fim de tributos históricos extingue bilhões em incentivos fiscais

Com a extinção programada do PIS, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) no final de 2026, no âmbito da reforma tributária sobre o consumo, aproximadamente R$ 40 bilhões em benefícios fiscais também deixarão de existir. Esses incentivos representam valores que não ingressam nos cofres públicos devido a leis específicas, beneficiando setores econômicos, regiões ou contribuintes por meio de isenções ou reduções tributárias.

Transição para novo sistema tributário

Como esses tributos serão extintos em 2026 e os benefícios vinculados a eles não foram renovados, não será mais possível conceder incentivos com base nessas contribuições no próximo ano. Eles serão substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), novo tributo federal sobre o consumo que ocupará o lugar desses impostos, e pelo imposto seletivo, também conhecido como "imposto do pecado".

De acordo com dados do Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) da Secretaria da Receita Federal, que consta no orçamento deste ano, os R$ 40 bilhões em benefícios fiscais que serão extintos representam cerca de 6,5% do valor total de R$ 612,8 bilhões (equivalente a 4,4% do Produto Interno Bruto). É importante destacar que o DGT não engloba todos os benefícios fiscais existentes no país.

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Impacto amplo na economia brasileira

Estudo divulgado pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco Nacional) no fim do ano passado estimou que os incentivos fiscais somarão quase R$ 1 trilhão em 2026. Enquanto alguns segmentos perderão benefícios fiscais específicos, todos os setores da economia serão beneficiados por uma premissa fundamental da reforma tributária, segundo o governo: a desoneração completa dos investimentos e das exportações.

Ao mesmo tempo, como a reforma prevê um regime não cumulativo, as empresas também serão ressarcidas dos tributos pagos em cadeias anteriores da produção — algo que não acontece atualmente. "O que o novo sistema vai fazer? Vai migrar, salvo as exceções, como o Simples Nacional, para um sistema não cumulativo. Não tem incidência no meio da cadeia, não tem incidência na origem, só no destino das exportações, e não tem incidência nos investimentos. A gente muda a lógica, e vai ficar transparente", afirmou Rodrigo Orair, diretor de Programa da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda.

Mudanças na arrecadação e manutenção de benefícios

Com o fim do PIS, Cofins e do IPI, e dos benefícios fiscais ligados a eles, em tese haverá aumento de arrecadação na mesma proporção no próximo ano, ou seja, de cerca de R$ 40 bilhões em 2027. Outro fator que elevará a arrecadação será o imposto seletivo para produtos considerados nocivos, como álcool, tabaco, bebidas açucaradas e combustíveis poluentes. Este imposto ainda precisa ser regulamentado pelo Congresso Nacional.

Em contrapartida, a reforma tributária manteve vários benefícios existentes, como:

  • Simples Nacional
  • Zona Franca de Manaus (ZFM)
  • Defensivos agrícolas
  • Entidades filantrópicas
  • Livros
  • Equipamentos médicos
  • Transporte coletivo e de passageiros
  • Táxis e automóveis para portadores de deficiência

Mais de R$ 150 bilhões em benefícios foram mantidos pelo Congresso Nacional. Simultaneamente, o Legislativo também definiu reduções adicionais de impostos para cesta básica e medicamentos, além de ter estabelecido subsídios para alguns setores da economia.

Benefícios específicos e compensações sociais

"Na grande maioria dos casos, você uniformizou ou diminuiu [os benefícios]. Mas não é que acabaram todos os tratamentos favorecidos. Boa parte deles foram trazidos para o novo modelo. Em alguns casos, até ampliados. Por exemplo, a cesta básica e redução de alíquotas para medicamentos serão maiores do que hoje, são dois casos que aumentaram. E tem várias coisas que continuam, como o Simples e a Zona Franca", explicou Rodrigo Orair.

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Serão beneficiados, por exemplo, produtos da cesta básica com alíquota zero, como:

  1. Carnes
  2. Peixes (com exceção de salmão, atum e bacalhau, entre outros)
  3. Arroz
  4. Leite
  5. Feijão

Vários itens, como amido de milho, óleos e pão de forma, por sua vez, terão tributação reduzida. Uma lista com mais de 300 remédios também contará com isenção do futuro imposto sobre o consumo do governo federal, segundo texto aprovado pelo Legislativo. Na lista estão medicamentos populares como losartana (usado para o tratamento de pressão alta), insulina (para o controle da diabetes), isotretinoína (para controle da acne), além de remédios para ansiedade, como Diazepan.

Outro fator que reduzirá a arrecadação será o chamado "cashback", a devolução de impostos para a população carente. Serviços essenciais, como água, gás encanado e energia elétrica já terão desconto embutido nas faturas, e haverá devolução de parte do valor do imposto em compras em supermercados e farmácias, por exemplo.

Futura alíquota e desafios do sistema tributário

Além disso, alguns setores foram beneficiados com alíquota reduzida (como serviços privados de saúde e educação), ou seja pagarão menos do que o restante da economia, assim como algumas categorias de profissionais liberais — reduzindo a arrecadação final do futuro imposto sobre o consumo.

No fim das contas, tanto as reduções de incentivos e o imposto seletivo — que elevarão a arrecadação — e os novos benefícios (investimentos, exportações, cesta básica, remédios e setores da economia) aprovados pelo Congresso Nacional, atuando para reduzir as receitas, serão considerados para o cálculo da futura alíquota da CBS.

O objetivo da reforma tributária é manter o atual peso dos impostos sobre o consumo que já existe — que é um dos maiores do mundo. Com isso, estimativas apontam que a futura CBS nascerá com uma das maiores alíquotas do planeta, em cerca de 28% (englobando o governo, estados e municípios).

A consequência da concentração maior da carga tributária brasileira sobre o consumo no Brasil é o alto grau de "regressividade" (se arrecada proporcionalmente mais de quem ganha menos). Em países mais desenvolvidos, há um peso maior da tributação sobre a renda, algo que não foi implementado no Brasil mesmo com a isenção de até R$ 5 mil no IR e a taxação dos mais ricos para compensar essa perda de arrecadação.

"Imposto seletivo mais a CBS vão ter que gerar o mesmo tanto de arrecadação que o PIS, Cofins e o IPI. Quanto mais benefícios eu dei, maior terá de ser a alíquota sobre os bens e serviços em geral. Como eu tenho a meta de arrecadação, se eu reduzir a alíquota para o serviço prestado pelo profissional liberal, vou ter que tributar mais a camiseta, o sabonete, o artigo mobiliário e assim sucessivamente", disse Orair.

Cronograma de implementação e operacionalização

O cálculo da alíquota da CBS, que começa em 2027, está sendo feita pela Receita Federal com técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) e será divulgado até meados deste ano. De 2029 a 2032, haverá a transição do ICMS estadual e do ISS municipal para o IBS (o futuro tributo sobre consumo dos estados e municípios) — que terá alíquota cheia a partir de 2033.

Antes disso, o Congresso Nacional terá de regulamentar o imposto seletivo, fixando alíquotas adicionais para cada produto nocivo à saúde, para que a Receita e o TCU possam considerar esses valores para estimar a alíquota da CBS que valerá em 2027.

Com o início do futuro imposto federal sobre o consumo no ano que vem, os valores serão pagos pelas empresas de imediato, ou seja, no ato da compra dos produtos e serviços pela população. É o chamado "split payment", algo que reduzirá a sonegação de impostos.

Desde o início deste ano, uma mega plataforma do governo para operacionalizar o pagamento dos tributos, o "cashback" para a população de baixa renda e a devolução de impostos pagos em cadeias anteriores, já está em funcionamento em fase de testes.