A recente desvalorização do dólar frente ao real, com a cotação atingindo patamares abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde 2024, está transformando a dinâmica econômica e social na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Em Sant'ana do Livramento, no Rio Grande do Sul, e na cidade uruguaia de Rivera, o movimento de turistas brasileiros em busca de produtos com preços mais atrativos tem sido intenso, especialmente durante períodos de feriado.
Hotéis lotados e comércio aquecido
O fenômeno econômico está gerando impactos visíveis na infraestrutura local. Estabelecimentos hoteleiros na região registram reservas esgotadas, enquanto restaurantes operam com lotação máxima. O comércio varejista em ambas as cidades fronteiriças experimenta um fluxo incomum de consumidores, que atravessam a fronteira motivados pela oportunidade de adquirir produtos com valores significativamente reduzidos.
Depoimentos de turistas e comerciantes
Rafael Becker, militar que viajou de Alegrete com sua família, revela: "Foi um dos argumentos que a mulher usou para a gente vir. Ela estava discursando desde ontem que a gente tinha que vir porque o dólar baixou". A família aproveitou para almoçar, comprar queijos artesanais e doce de leite, produtos tradicionalmente procurados na região.
Sabrina Vieira, gerente de uma loja em Livramento, comenta sobre o efeito positivo: "Aqui sempre tem bastante turista que vem comprar do lado de Rivera. Então, respinga para a gente aqui", destacando como o movimento beneficia ambos os lados da fronteira.
Produtos mais procurados
Entre os itens com maior demanda estão:
- Queijos artesanais uruguaios, como as variedades Dumbo e Colônia
- Edredons, cobertores e roupas de frio
- Eletrodomésticos, incluindo aparelhos de ar-condicionado
- Doces tradicionais, especialmente o doce de leite
Cintia Silveira, que viajou quase cinco horas de Cachoeira do Sul, explica sua motivação: "Compramos edredom, cobertor e roupas de frio para nós e para as crianças", demonstrando como as famílias estão se preparando para o inverno com produtos adquiridos a preços mais acessíveis.
Estratégias comerciais diferenciadas
Os estabelecimentos comerciais na região estão implementando estratégias específicas para atrair e fidelizar os consumidores brasileiros. Lojas especializadas em produtos como ar-condicionado oferecem serviços adicionais, incluindo garantia válida no território brasileiro e listas de instaladores credenciados nas cidades de origem dos clientes.
Marthina Martins, gerente de marketing, detalha: "O pessoal que vem aqui recebe toda a lista de instaladores de acordo com as suas cidades", evidenciando como o atendimento personalizado se tornou um diferencial competitivo.
Viagens que compensam
Os turistas garantem que o deslocamento até a fronteira vale a pena financeiramente. Maria Deloir, aposentada, afirma: "Muitas coisas é a metade do preço do Rio Grande do Sul. E muitas coisas também não têm lá", ressaltando tanto a vantagem econômica quanto a disponibilidade de produtos exclusivos.
Izilda de Paula, professora, combinou turismo e compras durante sua visita: "Como ficamos hospedados aqui, aproveitamos para fazer compras em Rivera", após realizar o passeio do "Trem dos Pampas", demonstrando como a região está se consolidando como destino multifuncional.
Impacto econômico regional
A valorização do real frente ao dólar está gerando um ciclo virtuoso na economia local. Além do comércio varejista, setores como gastronomia, hospedagem e entretenimento estão sendo diretamente beneficiados pelo aumento do fluxo turístico. Produtores artesanais uruguaios, especialmente os queijeiros, estão ampliando sua produção para atender à demanda crescente, com cuidados especiais de embalagem a vácuo para facilitar o transporte dos produtos.
O cenário atual na Fronteira da Paz reflete como variações cambiais podem influenciar diretamente o comportamento de consumo e movimentar economias regionais, criando oportunidades tanto para visitantes quanto para empreendedores locais que souberam se adaptar às novas condições de mercado.



