Copom sinaliza corte da Selic em março: entenda a lógica do Banco Central
Copom sinaliza corte da Selic em março: lógica do BC

Copom sinaliza início da redução da Selic em março, com condicionantes ao cenário

Em sua reunião de janeiro, o Comitê de Política Monetária, conhecido como Copom, anunciou que deverá iniciar o processo de redução da taxa Selic a partir de março, "em se confirmando o cenário esperado". Essa declaração serve como um bom pretexto para darmos um passo atrás e buscarmos compreender a lógica que governa a ação do Banco Central na gestão da política monetária brasileira.

O regime de metas para a inflação e os desafios do horizonte relevante

Desde 1999, e agora reforçado pela Lei Complementar 179/2021, o Banco Central segue o regime de metas para a inflação. Nesse sistema, o Executivo, representado pelo Conselho Monetário Nacional, define uma meta numérica para a inflação, atualmente fixada em 3%. Cabe ao BC, por meio do Copom, tomar decisões sobre o nível da taxa de juro que faça a inflação convergir para essa meta.

No entanto, existem dois problemas fundamentais nesse processo. Em primeiro lugar, a taxa de juro não atua imediatamente sobre a inflação. De acordo com a maior parte dos modelos econômicos, alterações promovidas agora na taxa de juro se manifestam num intervalo de quinze a dezoito meses, o chamado "horizonte relevante".

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Em segundo lugar, decorrente do primeiro ponto, o Banco Central desconhece qual será exatamente a inflação 15 a 18 meses à frente. O melhor que pode fazer é simular o desempenho do IPCA no período com o auxílio de vários modelos estatísticos, dependendo da trajetória esperada da taxa de juro ao longo desse horizonte relevante.

Metodologia interna e decisões baseadas em projeções

Por uma questão de metodologia interna, o Banco Central costuma projetar a inflação nesse período tomando como ponto de partida as expectativas de mercado quanto à evolução da taxa de juro. Essas expectativas são resumidas no Relatório Focus da semana anterior à reunião do Copom.

Caso a inflação projetada fique acima da meta dada a trajetória do juro, o recado é claro: o BC não pode seguir a trajetória esperada pelos analistas. Se ficar abaixo, deve ser mais agressivo do que o sugerido. Por fim, se a projeção de inflação se encontrar próxima às metas, provavelmente decidirá por uma trajetória da Selic similar à esperada pelo mercado.

Tal exercício ocorre a cada reunião do Copom, que acontece a cada seis semanas aproximadamente. Dessa forma, a cada intervalo, o Comitê pode reavaliar sua decisão, mantendo a trajetória esperada ou revisando-a conforme se altere o cenário econômico e, com ele, suas previsões acerca do comportamento futuro da inflação.

Projeções atuais e dúvidas sobre a convergência da inflação

No cenário atual, sob a hipótese de que a taxa de juro comece a cair em março e atinja 12,25% ao final deste ano e 10,50% em dezembro de 2027, o Banco Central projeta que a inflação convergiria para a meta no final de 2027 ou início de 2028. Isso está um tanto além do seu horizonte relevante, mas é consistente com a trajetória de juros planejada.

Daí o anúncio do início do ciclo de afrouxamento monetário, embora de forma gradual. Nesse cenário, a taxa real de juro, isto é, deduzida a inflação esperada, cairia de 10,6% ao ano hoje para 6,8% ao ano no final do ano que vem, um nível ainda considerado bastante elevado.

O autor expressa dúvidas de que tal trajetória, ainda que aparentemente conservadora, seja capaz de fazer a inflação convergir à meta de 3%. O mercado de trabalho, em particular, ainda parece excessivamente apertado: o ritmo de crescimento dos salários, em 9% ao ano, implica pressões que provavelmente não permitirão a convergência desejada.

Ademais, é importante destacar que, ao contrário de um mito bastante difundido, o juro alto não está ligado à meta supostamente baixa de inflação. Essa questão será abordada em detalhes em outro momento, mas por ora, fica o alerta sobre os desafios que o Banco Central enfrenta para equilibrar a política monetária com as condições econômicas atuais.

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