Sem Guillen, Copom adota linguagem mais direta e antecipa corte da Selic em março
Copom muda tom sem Guillen e sinaliza corte da Selic em março

Copom inaugura nova fase com linguagem mais direta e sinalização de corte da Selic

O Banco Central divulgou nesta terça-feira a íntegra da ata da 275ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcando um momento histórico. Esta foi a primeira reunião, após 30 encontros consecutivos, sem a presença do ex-diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, que atuou como principal redator dos comunicados e atas desde a 246ª reunião, em maio de 2022.

Mudança no estilo e antecipação da flexibilização

Embora tenha mantido a taxa Selic em 15% ao ano – patamar vigente desde 20 de junho de 2025 – o comunicado já evidenciou uma transformação significativa. O texto se mostrou mais sucinto e direto, com menos do chamado "coponês", e antecipou claramente a redução da Selic para março.

Aqueles que tentaram decifrar o nível exato da queda da taxa básica de juros, prevista para 18 de março, ficaram frustrados. O Copom se limitou a afirmar, de maneira mais objetiva e em 19 tópicos – contra 23 da reunião de setembro – que "antevê, em se confirmando o cenário esperado de continuidade da desinflação, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião".

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O Comitê reforçou, no entanto, que "manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta". O alerta foi claro: "O compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo", que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária.

Reações do mercado e troca de mensageiros

Acontece que mudanças de linguagem nem sempre são bem interpretadas pelo mercado financeiro, acostumado a ler as sutis – e por vezes enfadonhas – entrelinhas das atas do Copom. A troca do mensageiro principal traz sempre desafios, pois as operações do mercado são planejadas a curto, médio e longo prazo.

O Itaú chega a comparar minuciosamente mudanças de palavras e vírgulas a cada reunião. Talvez seja o banco que mais tenha egressos da diretoria do Banco Central. O atual diretor de Pesquisas Macroeconômicas, Mário Mesquita, integrou o Comitê, assim como Bruno Serra, que antecedeu Gabriel Galípolo na diretoria de Política Monetária até março de 2023. Ambos saíram do Itaú para o BC, e Diogo Guillen deve seguir o caminho inverso, indo para o Itaú após cumprir quarentena, possivelmente na vaga de Mesquita, que se aposenta por atingir idade máxima estatutária.

A diretoria de Política Monetária está ocupada, desde janeiro de 2025, pelo ex-diretor Tesoureiro do Bradesco, Nilton Davi. Por sinal, Roberto Campos Neto era diretor Tesoureiro da América Latina do Santander – onde entrou com a compra do Bozano Simonsen pelo banco de Ana Botin – quando foi chamado para a presidência do Banco Central pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, em dezembro de 2018.

Indicações de Haddad e cenário internacional

O mercado também reagiu ao vazamento das indicações ao presidente Lula pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que deixa o posto este mês. Haddad sugeriu dois nomes para ocupar as vagas de Diogo Guillen e Renato Brito Gomes na Organização do Sistema Financeiro Nacional: seu secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, e o economista e professor de Cambridge, Tiago Cavalcanti.

A preocupação surge porque Guilherme Mello, formado na Unicamp, não se alinha entre os monetaristas ortodoxos, e Cambridge é associada ao pensamento heterodoxo, bem distinto da ortodoxia monetarista de Chicago de Milton Friedman.

No cenário internacional, mudanças na direção dos juros nos Estados Unidos, com a indicação por Trump do ex-diretor Kevin Warsh para substituir Jerome Powell em 15 de maio de 2026, também mexem com expectativas. Warsh traz a missão de derrubar os juros, algo que Trump cobrava insistentemente de Powell.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Perspectivas de juros reais e economia de recursos

A leitura predominante no mercado – que parece correta e indispensável – é que o Banco Central, com a desinflação consolidada e a flexibilização dos controles do mercado financeiro na era Campos Neto, partirá para um regime de juros reais mais brando que os atuais mais de 10%.

Cada redução de um ponto percentual nos juros poupa aproximadamente R$ 62 bilhões em um ano ao Tesouro Nacional. Isso significa menos recursos drenados para rentistas e para o mercado financeiro como um todo.

Se os juros reais caírem para 7% – ainda com alto diferencial em relação aos Estados Unidos, que podem reduzir os "fed funds" dos atuais 3,50%-3,75% ao ano para 2,75%-3,00% ao ano – ainda sobrará margem significativa para arbitragem entre os diversos ativos e moedas. Porém, com um pouco mais de risco embutido. É o fim percebido de uma fase de ganhos relativamente fáceis e com baixo risco, cenário que o mercado antevê e, em certa medida, critica.

Pequeno resumo histórico do Copom

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), inspirado no Federal Open Market Committee (FOMC) dos Estados Unidos, foi criado em junho de 1996, durante a gestão do presidente Gustavo Loyola, que sucedeu a Persio Arida e foi sucedido por Gustavo Franco.

Inicialmente, as reuniões ocorriam a cada 30 dias. O principal instrumento de contenção da inflação no início do Plano Real, a partir de 1º de julho de 1994, era a âncora cambial, comandada pelo diretor da área Externa, Gustavo Franco.

A âncora cambial foi abandonada em janeiro de 1999, no começo do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, com a troca de Gustavo Franco por Francisco Lopes na presidência do BC. Chico Lopes trocou as bandas cambiais por um modelo que durou poucas horas. O câmbio furou o teto e paralisou a BM&F na esteira da quebra dos bancos Marka e Fonte-Cindam, que apostavam no câmbio estável.

Chico Lopes foi substituído por Armínio Fraga, que só tomou posse oficialmente em março de 1999, mas adotou o câmbio flutuante já em fevereiro. Inspirado na experiência vitoriosa do Banco Central da Nova Zelândia, copiado por vários países na década de 90, Fraga trouxe para o Brasil o sistema de metas de inflação.

Por esse sistema, a partir de julho de 1999 – quinto ano do Plano Real – o Banco Central passou a mirar a meta de inflação com até 18 meses de antecedência, avaliando um enorme conjunto de dados macroeconômicos. Com o tempo, para auscultar o mercado, passou a submeter ao mercado financeiro, consultorias e institutos de pesquisa suas expectativas através de uma série de indicadores macroeconômicos que integram a Pesquisa Focus.

Após cada reunião do Copom – que passou a ter intervalo de 45 dias em 2006 – o Comitê divulga um comunicado sucinto, seguindo o exemplo do Federal Reserve Bank, que realiza reuniões nos mesmos dias que o Copom, antecipando a direção da política monetária e o nível de juros para o sistema financeiro global.