Dívida no cartão rotativo atinge patamar alarmante de R$ 400 bilhões no Brasil
O uso do cartão de crédito rotativo, reconhecidamente a linha de crédito mais cara do mercado financeiro brasileiro, experimentou um crescimento explosivo após o término da pandemia da Covid-19, aproximando-se da marca histórica de R$ 400 bilhões no ano passado. Os dados, divulgados pelo Banco Central, revelam uma situação preocupante no cenário financeiro nacional, onde esta modalidade é apontada como um dos principais responsáveis pelo elevado nível de endividamento da população.
Números que refletem uma realidade endividada
De acordo com a autoridade monetária, o Brasil conta com 101 milhões de pessoas utilizando cartão de crédito, o que representa quase metade da população do país. Entretanto, o aspecto mais alarmante reside no fato de que, em janeiro deste ano, aproximadamente 40 milhões de brasileiros estavam com dívidas ativas no cartão de crédito rotativo.
A combinação de juros exorbitantes resultou em uma taxa de inadimplência que alcançou impressionantes 63,5%. Em termos práticos, isso significa que mais de R$ 60 em cada R$ 100 emprestados através desta modalidade não foram honrados pelos consumidores. Para contextualizar a gravidade, a taxa de juros do rotativo registrou 436% ao ano em fevereiro, enquanto modalidades como o crédito consignado apresentam taxas que variam entre 24% e 60% anuais.
Mecanismo de endividamento e medidas de contenção
O crédito rotativo do cartão é acionado automaticamente quando o consumidor não consegue pagar o valor integral da fatura na data de vencimento. Especialistas financeiros alertam que esta forma de crédito deve ser evitada a todo custo, recomendando que os clientes bancários realizem o pagamento total da fatura mensalmente para escapar dos juros abusivos.
Em resposta à crise, o Congresso Nacional e o governo federal implementaram, em janeiro de 2024, uma limitação ao endividamento via cartão rotativo. A nova regra estabelece que o valor total da dívida, incluindo juros e encargos, não pode ultrapassar o dobro do valor original. Por exemplo, uma dívida inicial de R$ 100 não poderá exceder R$ 200 após a aplicação de todos os encargos financeiros.
Crédito rotativo como complemento de renda
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, fez uma declaração reveladora no mês passado, afirmando que muitas pessoas estão utilizando linhas de crédito destinadas a emergências, como o rotativo do cartão, como parte complementar de sua renda mensal. Segundo Galípolo, esta prática deveria ser alvo de uma "discussão estrutural" mais profunda.
"Nossa dimensão no BC é como conseguimos construir alternativas para o cliente ter uma opção mais adequada à sua situação", explicou o presidente, destacando a necessidade de "produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito".
Evolução histórica e contexto pós-pandemia
Analisando a série histórica do Banco Central, observa-se que entre 2012 e 2020, as concessões de crédito através do cartão rotativo nunca haviam ultrapassado R$ 225 bilhões anuais. Os anos de 2020 e 2021 foram marcados pelo pagamento do Auxílio Emergencial, que proporcionou alívio financeiro durante o período mais crítico da pandemia.
Contudo, com o término do auxílio governamental a partir de 2022, combinado com o retorno de pressões inflacionárias significativas - com índices atingindo mais de 10% em 2021 e cerca de 5,8% em 2022 - as concessões de novos empréstimos no cartão rotativo alcançaram patamares sem precedentes, culminando nos quase R$ 400 bilhões registrados.
Soluções em discussão no ano eleitoral
Em um contexto de ano eleitoral, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está desenvolvendo um programa abrangente para reduzir o endividamento da população. A estratégia envolve a unificação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em uma única operação, que seria refinanciada com descontos que poderiam variar entre 30% e 80% nos juros, com a possibilidade de os bancos concederem descontos de até 90%.
Dentro do mesmo programa de refinanciamento, o governo avalia autorizar o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o pagamento de dívidas, embora com limites estabelecidos para evitar um esvaziamento dos fundos dos trabalhadores. Ambas as medidas foram admitidas pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, como parte dos esforços para aliviar a pressão financeira sobre as famílias brasileiras.
Paralelamente, o governo lançou no ano passado o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, com mais de R$ 80 bilhões liberados em um ano. No entanto, a regulamentação do uso do saldo do FGTS como garantia para empréstimos - prometida como um diferencial para reduzir os juros aos trabalhadores - ainda aguarda implementação prática.



