Calibragem é a palavra-chave do BC para início do ciclo de corte de juros, afirma Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou nesta segunda-feira que a palavra calibragem passou a guiar o discurso da autoridade monetária no atual ciclo de política. Durante o evento Estabilidade Financeira e Perspectivas para 2026 e 2027, promovido pela Associação Brasileira de Bancos, Galípolo enfatizou que, embora haja uma melhora relevante no ambiente inflacionário, a atividade econômica mostra-se mais resiliente do que o esperado para um cenário de juros em 15%.
Início da flexibilização exige cautela e gradualidade
Segundo Galípolo, o início da flexibilização monetária está sinalizado para março, mas o ritmo e a magnitude dependerão da evolução dos dados econômicos. O sentimento é de que o processo seja gradual, afirmou o presidente do BC, ressaltando que a instituição não trabalha com um objetivo pré-definido para a taxa real de juros. As decisões seguirão sendo tomadas com base na leitura contínua dos indicadores, exigindo prudência devido à resiliência observada no mercado de trabalho, na renda e na atividade como um todo.
Balanço da política monetária e desafios históricos
Ao fazer um balanço do último ano, Galípolo lembrou que o Banco Central reagiu de forma ativa à deterioração do cenário macroeconômico, com forte elevação da Selic diante da piora das expectativas de inflação, do câmbio e do aquecimento da atividade. Chegamos a um momento em que as expectativas de inflação para o horizonte relevante começavam a namorar algo próximo de 6%, disse, destacando que, após interromper o ciclo de alta, o BC manteve a taxa elevada por um período prolongado para permitir a transmissão dos efeitos à economia.
Na avaliação atual, há uma melhora clara tanto da inflação corrente quanto das expectativas, mas isso não autoriza uma leitura complacente. Não reconhecer que estamos numa situação diferente transmitiria alienação dos dados, mas isso não é uma volta da vitória, afirmou Galípolo, reforçando a necessidade de calibragem cuidadosa.
Fatores que explicam juros historicamente elevados no Brasil
Galípolo também abordou as idiossincrasias que reduzem a eficácia dos juros no Brasil, como o modelo de financiamento imobiliário e a estrutura da dívida pública. Hoje, praticamente 50% da dívida pública está indexada à Selic e cerca de 20% à inflação. Isso gera um sinal invertido: você sobe a taxa de juros e a transferência de renda aumenta, explicou.
Esse conjunto de fatores ajuda a entender por que o país convive historicamente com juros elevados, dificuldade de convergência da inflação à meta e, ainda assim, uma atividade econômica resistente. Esse é o grande desafio da quadra histórica da economia brasileira. E, diferente do Plano Real, não haverá bala de prata, defendeu Galípolo, argumentando pela necessidade de reformas sucessivas e engajamento amplo da sociedade para enfrentar esses obstáculos estruturais.



