O número de reclamações sobre a população em situação de rua em Campinas (SP) cresceu 20% em 2025, atingindo o maior patamar dos últimos cinco anos, segundo dados do serviço 156 da prefeitura. Foram 522 reclamações registradas neste ano, contra 435 em 2024. Em 2023, foram 402; em 2022, 282; e em 2021, 225. Até o momento, 2026 já soma 68 queixas.
Censo e perfil da população de rua
O último Censo para retratar essa população em Campinas, realizado em 2024, apontou 1,3 mil pessoas em situação de rua na metrópole. Moradores de bairros como Cambuí, Jardim Londres, Bonfim, Cidade Jardim e Vila Industrial, que lideram as queixas, associam a presença crescente de pessoas nas ruas a furtos e sensação de abandono.
Análise de especialista
O sociólogo e professor da PUC-Campinas, Everton Silveira, que estuda o tema há mais de 30 anos, afirma que a situação é resultado de múltiplos fatores. "As pessoas não estão na rua somente pela falta de moradia, pelo uso do álcool, ou porque estão fugindo da sua família, ou porque estão sem trabalho. Nós temos um complexo de fatores que geram a situação de rua", explica.
Segundo o especialista, a solução exige uma abordagem mais sofisticada e articulada. "Nós temos serviços muito competentes também do município, mas também existem insuficiências. A gente precisaria hoje ter serviços mais complexos do que mais serviços. É uma articulação entre o Estado, as organizações sociais e a sociedade civil como um todo", analisa.
Relatos de insegurança e furtos
"Tem uns quatro anos que tem muito morador de rua, eles estão concentrados agora todos ali na praça. Eu acho um absurdo isso. E tem muito aqui, roubo de lixeira, roubaram todas as lixeiras da rua", relata a costureira Roserci Boletini, da Vila Industrial.
Na mesma rua, o manobrista Carlos Cabral confirma a situação. "Pusemos uma lixeira na frente de casa, que era de ferro, e não demorou muito tempo, arrancaram, roubaram ela. Aí tivemos que fazer de madeira para não acontecer novamente", conta.
Para a faxineira Solange Cavalcante, as ações parecem insuficientes. "Eles só jogam de um lado para o outro, mas o problema acaba não sendo resolvido", opina.
Posição da prefeitura
A secretária de Assistência Social de Campinas, Vandecleya Moro, afirma que o município oferece uma rede de apoio no albergue municipal (SAMIM), com alimentação, banho, pernoite, assistência psicológica e social. Segundo ela, a maioria das pessoas em situação de rua na cidade é de fora, e por isso também há um serviço de recâmbio para os municípios de origem.
A gestão diz ainda que promove ações para a superação da condição de rua. "São encaminhamentos para o mercado de trabalho, encaminhamentos para entrevistas de emprego, formação, capacitação profissional", detalha a secretária, que reconhece a necessidade de ampliar os serviços diante do agravamento do problema percebido pela população.



