Peixes e nascentes na Avenida Rondon Pacheco surpreendem em Uberlândia
Peixes e nascentes na Avenida Rondon Pacheco em Uberlândia

Uma nascente a céu aberto, com pequenos peixes e rodeada por vegetação, chama a atenção de quem transita pela movimentada Avenida Rondon Pacheco, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Localizada em uma das vias mais movimentadas da cidade, que registra circulação diária de aproximadamente 19,2 mil veículos, segundo a Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (Settran), a presença desse olho d'água tem explicação histórica: a avenida foi construída sobre o leito do córrego São Pedro.

Fenômeno comum no Cerrado

De acordo com o biólogo Kléber Del Claro, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o fenômeno é típico do bioma Cerrado, onde o lençol freático se encontra próximo à superfície. Essa característica permite que a água emerja em determinados pontos, formando nascentes como a observada na Rondon Pacheco. "Há moradores que possuem até nascentes em seus próprios quintais. Em bairros como o Jardim Inconfidência, é comum encontrar pequenas lagoas e poças d'água formadas naturalmente. Nesses ambientes vivem pequenos peixes muito resistentes, do gênero Phalloceros, que pertencem ao mesmo grupo do lebiste, conhecido peixe de aquário", explicou o especialista. Além dos peixes, esses locais abrigam ninfas, libélulas, larvas de insetos aquáticos e girinos, formando um ecossistema miniatura.

Natureza resiliente

Apesar de seu tamanho reduzido, nascentes como a da Avenida Rondon Pacheco demonstram uma notável diversidade de espécies e evidenciam a capacidade da natureza de resistir à intervenção humana, conforme ressalta o biólogo Kléber Del Claro. "É algo bonito e triste ao mesmo tempo: esses pequenos animais vivendo de forma tão precária em um ambiente que originalmente lhes pertencia. A área, que antes era uma vereda, jamais deveria ter sido descaracterizada. Construir uma via nesse tipo de terreno acarreta consequências, como os alagamentos recorrentes na Rondon Pacheco todos os anos", lamentou.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

A presença dos peixes contribui para essa resiliência. O veterinário André Schlemper explica que essas espécies são extremamente resistentes, capazes de viver em água salobra (mistura de água doce e salgada) e em ambientes poluídos ou com baixo teor de oxigênio. "Diferentemente da maioria dos peixes, eles são vivíparos: em vez de colocar ovos, dão à luz filhotes já formados. Isso os torna altamente adaptáveis", destacou.

Origem dos peixes

Para entender a origem dos peixes do gênero Phalloceros na região, é necessário recuar no tempo. Segundo André Schlemper, essas espécies podem estar presentes desde as décadas de 1960 e 1970, quando foram amplamente distribuídas para o controle de mosquitos. No início dos anos 2000, nova distribuição ocorreu com o mesmo objetivo. "Hoje sabemos que não são tão eficientes nessa função, pois se alimentam de diversas fontes além das larvas de mosquitos. Além disso, são espécies invasoras com altíssima taxa de reprodução, competindo com espécies nativas de mesmo porte nos locais onde são introduzidas", alertou.

Outra hipótese é que moradores tenham soltado os peixes, já que são comuns em aquários, usados tanto como ornamentais quanto como alimento para peixes predadores.

Recomendações e responsabilidades

Especialistas orientam que a população não leve esses peixes para casa. Embora não haja registro de doenças graves transmitidas pelo contato, recomenda-se evitar o manuseio. O consumo também é desaconselhado, assim como a manutenção dos animais em aquários, pois eles podem ter sido expostos a substâncias químicas e carregar parasitas que contaminariam outros peixes.

O g1 questionou a Prefeitura de Uberlândia sobre as medidas adotadas em relação a esses peixes e nascentes. A Prefeitura informou que a responsabilidade é da Unidade Regional de Gestão das Águas Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Igam). O Igam, por sua vez, afirmou realizar medidas de preservação no local, sem detalhá-las. Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) declarou que o cuidado das nascentes cabe à Prefeitura.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar