Projeto de mineração de terras raras preocupa comunidade em Poços de Caldas
Moradores do Conjunto Habitacional Pedro Afonso Junqueira, em Poços de Caldas (MG), vivem apreensivos com a iminência de uma mina de terras raras a apenas 300 metros de suas casas. O projeto Colossus, de propriedade da mineradora australiana Viridis, ocupará uma área de 373 hectares, equivalente a 533 campos de futebol, e ficará ao lado de 14 bairros onde residem cerca de 60 mil pessoas na Zona Sul da cidade.
Proximidade gera medo e incerteza
A cozinheira aposentada Dirce Elena da Silva Alves, de 61 anos, mora há 44 anos no local e teme perder tudo que conquistou. "Mineração não é brinquedo, é um risco de vida. A gente não sabe o que pode acontecer. Me dá um desespero tão grande", desabafa. Ela lembra das dificuldades do passado, como a falta de asfalto e saneamento, e agora se preocupa com o futuro da neta que mora ao lado.
Silvia Helena, dona de casa, foi surpreendida pela notícia após quase 30 anos no bairro. Ela teme pela saúde da filha e do neto, que têm problemas respiratórios, e pela estrutura de sua casa. "Eles vão escavar fundo na terra, e se isso afetar a respiração e abalar as casas?", questiona.
Preocupação com recursos hídricos e estudos independentes
Uma das principais apreensões dos moradores é o impacto sobre as nascentes e o abastecimento de água. A organização Terra Viva, Água Rara identificou 93 nascentes na região, das quais três poderão ser extintas e outras comprometidas. A empresa admite que três nascentes serão afetadas, mas nega extinção. A advogada Jovana Moster, membro da organização, defende a necessidade de estudos independentes para confrontar os dados da mineradora. "Sem isso, a gente fica na mão de uma única perspectiva", afirma.
A funcionária pública Milca Aparecida Albino Silva também deseja mais estudos. "A mineração de terras raras é um universo novo. A cidade está acelerando o processo sem estudar os impactos", critica.
Expectativa de desenvolvimento divide opiniões
Por outro lado, alguns moradores veem a mineração como oportunidade. A terapeuta Patrícia Chagas, que inicialmente temia os riscos, mudou de ideia após conhecer o planejamento da empresa. "Eles estão seguindo as regras e legislações", diz. O educador físico Leonardo Rodrigues de Souza também enxerga potencial de desenvolvimento, mas ressalta a importância de contrapartidas sociais e do aproveitamento local dos recursos.
Empresa promete mitigação e investimentos
A Viridis informou que investirá R$ 1,7 bilhão até o início das operações, previsto para 2028. Desse total, parte será destinada a estudos ambientais, que custaram cerca de R$ 3 milhões e incluíram simulações de dispersão de poeira. A empresa afirma que nenhuma nascente será extinta, mas três terão seus cursos alterados, com monitoramento dos órgãos ambientais. O gerente da operação brasileira, Klaus Petersen, destaca as exigências ambientais dos investidores estrangeiros. "Eles querem rastreabilidade e melhores práticas", afirma.
A Prefeitura de Poços de Caldas, por meio do secretário de Meio Ambiente Stefano Zincone, informou que acompanha o processo, embora o licenciamento seja de competência estadual. A Câmara Municipal criou uma comissão especial para analisar o projeto.
Apesar das promessas, Milca Aparecida resume o sentimento de muitos: "Não vale a pena negociar o futuro da cidade sem saber como vamos ficar depois. Quando eles forem embora, quem vai ficar com o abacaxi é a população".



