Família gaúcha transforma cultivo de ruibarbo em negócio único no Brasil
Você já ouviu falar em ruibarbo? Originária da Ásia, essa planta é amplamente cultivada na Europa e nos Estados Unidos, mas no Brasil sua presença é uma raridade. Em São Francisco de Paula, na Serra do Rio Grande do Sul, uma família de produtores rurais encontrou na versatilidade do ruibarbo uma fonte de renda inovadora. Atualmente, a Fazenda da Cria se destaca como a única produtora comercial dessa hortaliça em todo o território nacional.
Do caule rosa à alta gastronomia
O caule rosa do ruibarbo é utilizado na produção de uma variedade impressionante de produtos. Desde doces, geleias, tortas e licores até medicamentos e pratos finos da gastronomia, a planta oferece múltiplas possibilidades. Isaura Muller, que administra a propriedade junto com o pai, Sadi Muller, e o filho Gabriel Muller, explica: "Vendemos ruibarbo para diversos mercados e, também, na Ceasa de Porto Alegre. Além disso, nossos principais clientes são chefs de restaurantes da alta gastronomia que encomendam do Brasil inteiro".
Desafios e peculiaridades do cultivo
O cultivo do ruibarbo não é uma tarefa simples. A planta necessita de condições específicas para se desenvolver: frio e altitude são essenciais, mas é durante o calor do verão que ela brota para a colheita. Sadi Muller detalha: "No inverno, a geada quase acaba com os pés de ruibarbo. Depois, entre outubro e março, os pés crescem e a gente consegue colher até 6 kg por pé no ano". A propriedade conta com cerca de 25 mil pés plantados, um investimento que exige paciência e conhecimento técnico.
Produtividade e inovação na agroindústria
A família vende os caules do ruibarbo em bandejas de meio quilo por R$ 10. Além disso, na própria agroindústria, produzem diversos produtos derivados da hortaliça. Isaura revela: "As geleias são o carro-chefe. Elas combinam com cucas, pães, tortas, drinks e até em pratos salgados como o churrasco". Essa versatilidade tem conquistado o paladar de chefs e consumidores, abrindo portas para criações autorais na culinária e na mixologia.
Ruibarbo na alta gastronomia e na saúde
Um exemplo dessa aplicação criativa vem do restaurante da cidade, onde o chef Gabriel Rodrigues Correa utiliza o ruibarbo em pratos como bochecha de porco com molho da planta. Ele destaca: "Essa planta tem um sabor ácido que valoriza o contraste entre salgado e doce no prato, além de quebrar a gordura de carnes". Já o barman Luis Claudio Simões recriou o drink 'spritz' com geleia de ruibarbo, suco de limão, licor da planta e espumante, criando uma bebida leve e refrescante.
Além do sabor, o ruibarbo traz benefícios significativos para a saúde. Sandra Loreni Almeida De Moraes Silva, extensionista rural da Emater/RS, lista: "É uma planta bioativa e muito funcional para o sistema digestivo, existem diversos medicamentos para o fígado e para o estômago feitos à base de ruibarbo. Além disso, é muito benéfico para a nossa pele por conta das fibras, e é rico em cálcio, potássio, vitamina A, vitamina E e antioxidantes".
História e legado familiar
A jornada da família Muller com o ruibarbo começou há mais de 40 anos, quando receberam o primeiro pé de uma vizinha que veio da Alemanha. Foram décadas de tentativas para aumentar e reproduzir o plantio, até que, em 2022, importando sementes alemãs, conseguiram implantar a lavoura comercial. Sandra contextualiza: "O ruibarbo já era usado na medicina e na culinária chinesa há milhares de anos e, segundo estudos, era tão valioso quanto a seda e o cravo na Ásia, na época. Não é uma planta comum da América do Sul e do clima tropical brasileiro, mas encontrou aqui em São Francisco de Paula um microclima perfeito com frio, sol, umidade e uma altitude de cerca de quase mil metros acima do nível do mar".
Hoje, o ruibarbo não apenas adiciona saúde à dieta e um toque agridoce ao paladar, mas também representa um legado familiar. Isaura complementa: "Já são três gerações da nossa família cultivando e divulgando o ruibarbo daqui do sul para o Brasil. Espero que ele possa ser a renda e o legado das próximas gerações também". Seja em sucos, saladas, doces ou pratos elaborados, essa planta rara continua a encantar e inovar, mostrando o potencial da agricultura familiar gaúcha.