Produtores rurais enfrentam falta de diesel e preços abusivos durante colheita no Sul
Falta de diesel e preços altos afetam colheita no Sul

Produtores rurais do Sul enfrentam crise no abastecimento de diesel durante colheita

Agricultores do Rio Grande do Sul e do Paraná estão enfrentando sérias dificuldades para adquirir diesel necessário para o funcionamento de máquinas agrícolas, em pleno período crítico de colheita de arroz e soja. Além dos problemas de abastecimento, os produtores denunciam aumentos considerados "abusivos" nos preços do combustível, que em alguns casos subiram mais de 50% em poucos dias.

Relatos de escassez e preços elevados em várias regiões

"Até o início da semana passada, ninguém se preocupava com a entrega de diesel. Já nessa semana, eu fui fazer um pedido e fui colocado em uma lista de espera. Estava pagando R$ 5 o litro, e já subiu para R$ 7", relata o produtor de arroz Fernando Rechsteiner, de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

No Paraná, a situação não é diferente. "Temos recebido relatos de falta de diesel desde terça. Um produtor de Rio Azul, por exemplo, nos informou que a distribuidora que atende na região não possui o combustível", afirma Luiz Eliezer Ferreira, técnico do departamento econômico do Sistema FAEP. "Outros relatos semelhantes estão chegando de Faxinal, Guarapuava, Prudentópolis e Irati", completa.

Em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, aproximadamente 20% dos produtores enfrentam dificuldades para encontrar óleo diesel, segundo Allan André Tormen, presidente do Sindicato Rural de Erechim. "Todos relatam alta de preço que varia 20% a 55%", destaca Tormen.

Contexto internacional e respostas oficiais

As queixas começaram uma semana após o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que provocou uma disparada do preço do petróleo no mercado internacional. Embora a Petrobras ainda não tenha reajustado os preços no Brasil, o diesel já registrou aumento de 7% nos primeiros dias de março.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirma que não há registro de falta de combustível no país. No domingo (8), a agência publicou uma nota informando que entrou em contato com os principais fornecedores e apurou que o Rio Grande do Sul conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento de diesel. "As distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos", declarou a agência.

Sistema de abastecimento rural e suspeitas de especulação

A maioria dos produtores rurais não possui estrutura para armazenar grandes volumes de combustível e depende de entregas contínuas de diesel, explica Rechsteiner. Esse abastecimento é feito por empresas conhecidas como Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs), que compram o combustível das grandes distribuidoras para entregá-lo diretamente nas propriedades rurais.

Carlos Schneider, diretor do SindTRR no Rio Grande do Sul, explica que o que tem acontecido no estado é que as TRRs não estão recebendo combustível das distribuidoras. "A maioria das TRRs não possui contratos fixos com as grandes distribuidoras. Elas operam como clientes 'spot' (bandeira branca), o que as coloca no final da fila de prioridades das distribuidoras", detalha Schneider.

Diante da falta de uma explicação clara para o que está acontecendo, produtores e associações desconfiam de um movimento especulativo e de um possível freio nas importações diante da disparada dos preços. Antônio Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), afirma que tanto a falta de diesel nas TRRs quanto a disparada de preços "parecem" se tratar mais de "um movimento especulativo".

"O diesel que está saindo das distribuidoras foi comprado com petróleo abaixo de US$ 60", diz Luz. "O sujeito vê que o preço vai subir e segura o produto que ele tem estocado para vender 50% mais caro. Isso é algo extremamente danoso", ressalta.

Investigações e propostas para solucionar a crise

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação sobre os preços abusivos dos combustíveis, após um pedido da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) na última terça-feira (10).

Enquanto isso, associações rurais e distribuidoras têm pedido ao governo medidas para aumento da oferta de biodiesel no mercado doméstico como forma de frear a escalada de preços. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério de Minas e Energia (MME) o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel dos atuais 15% para 17%.

"O avanço da mistura de biodiesel representa uma medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional", explica no ofício o presidente da CNA, João Martins.

A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) e a Fecombustíveis defenderam, em nota, a liberação da importação de biodiesel até o limite de 20% da demanda nacional. Outras entidades como a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis (Brasilcom), SindTRR e Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) também assinaram a nota conjunta.