Exportação de gado vivo por navio dobra em 3 anos, apesar de críticas sobre bem-estar animal
Exportação de gado vivo dobra em 3 anos, com polêmicas

Exportação de gado vivo por navio dobra em 3 anos, gerando debate sobre bem-estar animal

O transporte marítimo de gado vivo experimentou um crescimento expressivo nos últimos três anos, com um aumento de 100% entre 2023 e 2025. Apesar das vendas serem inferiores às de carne bovina processada, que ultrapassou 3 bilhões de quilos no ano passado, a exportação de bovinos vivos alcançou um recorde histórico em 2025, atingindo quase 4 milhões de quilos, conforme dados da plataforma Agrostat, vinculada ao Ministério da Agricultura.

Motivações e destinos da exportação

Essa modalidade de comercialização tem duas principais justificativas, segundo Lincoln Bueno, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Gado (Abeg). Primeiramente, atende a populações que preferem carne de animais abatidos recentemente, considerada mais fresca. Em segundo lugar, permite a realização de protocolos religiosos específicos para o abate em países importadores. A maior parte desses animais é adquirida por nações estrangeiras para engorda e abate no exterior, sendo o processo mais oneroso do que a compra de carne refrigerada, devido ao espaço ocupado e aos custos adicionais de produção.

Os principais clientes do Brasil são os países da região do Magreb, que inclui Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Saara Ocidental. As viagens marítimas para esses destinos costumam durar aproximadamente 10 dias. Existe também o transporte por avião, mas essa modalidade é reservada para bovinos com foco em material genético, destinados à reprodução.

Críticas e incidentes controversos

Apesar da lucratividade, o transporte marítimo de gado vivo enfrenta duras críticas de especialistas em bem-estar animal. O caso mais recente ocorreu no final de 2025, quando um navio com cerca de 3 mil vacas, originário do Uruguai, ficou um mês encalhado na Turquia. Ambientalistas alertaram sobre dezenas de mortes e a possibilidade de cadáveres de animais terem sido lançados ao mar.

O Brasil também já foi alvo de acusações de maus-tratos. Em 2018, um navio com 25 mil bois permaneceu uma semana atracado no Porto de Santos, em São Paulo, após sofrer um embargo. A embarcação apresentava problemas de superlotação e excesso de fezes e urina, gerando odor intenso e poluição atmosférica na cidade. Posteriormente, o navio seguiu viagem para a Turquia.

Alguns países, como Reino Unido e Nova Zelândia, já proíbem esse tipo de comercialização. No entanto, Bueno argumenta que a exportação de gado vivo ajuda a regular o preço do boi no mercado interno, garantindo remuneração aos criadores mesmo em períodos de queda nos valores da carne.

Como funcionam as viagens marítimas

Os navios utilizados no transporte variam em capacidade, podendo levar de 4 mil a 30 mil animais. É comum embarcar bezerros com cerca de 300 kg, pois o manejo é mais facilitado. A alimentação é baseada em feno ou farelos, que são mais fáceis de transportar, mas os animais consomem menos do que em confinamentos tradicionais devido à limitação de espaço.

A ventilação é um aspecto crucial: nos decks superiores, ocorre naturalmente, enquanto nos inferiores é necessário um sistema de exaustão similar ao de garagens subterrâneas. Esse mecanismo é essencial porque o gado consome muita água e urina com frequência, gerando um cheiro forte de ureia. Os animais são separados em baias com até 10 bois, limitando a movimentação e reduzindo o risco de desequilíbrio da embarcação.

Normalmente, os navios contam com um médico veterinário e vaqueiros responsáveis pela alimentação e limpeza. Gisele Leite Camargo, coordenadora do Conselho de Delegados Sindicais do Anffa Sindical, afirma que é comum ocorrerem de uma a três mortes por viagem, índice considerado baixo quando se trata de milhares de animais. As mortes geralmente acontecem devido ao estresse e à redução da imunidade em um ambiente desconhecido.

Contestações sobre condições adequadas

Uma das principais críticas é a insuficiência de espaço para os animais viajarem com conforto. A Instrução Normativa 46 de 2018 determina que, para um bezerro de 300 kg, deve haver um metro quadrado por animal. Em comparação, a criação em confinamento oferece em média 10 metros quadrados por boi.

Outro ponto levantado é a circulação de ar precária nos decks inferiores, resultando em alto nível de umidade e amônia, substância gerada pela urina e fezes. Aline Sant'Anna, professora da Unesp especializada no tema, alerta que alguns navios são adaptações de embarcações antigas não projetadas para carga viva, aumentando o risco de falhas no sistema de exaustão.

A limpeza é fundamental, mas muitas vezes não há estrutura suficiente para drenar todos os dejetos produzidos. Em 2024, uma embarcação que saiu do Rio Grande do Sul rumo ao Iraque parou na África do Sul e deixou a Cidade do Cabo com um "fedor inimaginável", segundo o jornal The Guardian. Representantes de um conselho sul-africano encontraram bois mortos, doentes e cobertos de fezes, classificando a situação como "abominável".

Fiscalização e controvérsias regulatórias

Apesar de os navios pertencerem a empresas estrangeiras, eles devem seguir regras brasileiras e atender às exigências dos países compradores. Antes do embarque, os bovinos passam por um Estabelecimento de Pré Embarque (EPE), onde são submetidos a exames, vacinas e possível quarentena de até 30 dias. Animais doentes não podem embarcar.

Segundo o Anffa Sindical, a fiscalização é rigorosa e todos os navios que partem do Brasil estão dentro das exigências legais. No entanto, Camargo reconhece que, após a saída do território nacional, o país perde o poder de fiscalização. Ela também menciona que há relatos de navios com condições ruins operando na Ásia, mas esses geralmente não aportam no Brasil.

Bueno defende que as exportadoras brasileiras seguem a legislação vigente, embora admita que possa haver exceções. "Agora, se tem alguém que não fez [como na lei] ou se alguém fez algo diferente, isso em todas as atividades pode ser que tenha, mas é muito difícil", afirma o presidente da Abeg.

O debate continua acalorado, com defensores destacando os benefícios econômicos para o setor pecuário e críticos exigindo maior transparência e melhorias nas condições de transporte para garantir o bem-estar animal.