Clima imprevisível no Tocantins desafia agricultura e afeta preços dos alimentos nas cidades
Nos últimos anos, produtores rurais do Tocantins têm enfrentado uma pergunta cada vez mais frequente e preocupante em suas propriedades: vai chover demais ou vai faltar chuva? A irregularidade climática, marcada por períodos prolongados de seca alternados com volumes excessivos de precipitação concentrados em curtos intervalos, tem imposto novos e complexos desafios à produção agrícola estadual. Essas variações atmosféricas trazem reflexos que transcendem as lavouras, alcançando diretamente o cotidiano da população urbana.
Variações intensas e imprevisíveis
No estado, o clima sempre foi um fator determinante para o sucesso das safras, porém as oscilações se tornaram mais intensas e difíceis de prever. Chuvas fora de época, veranicos em fases críticas do desenvolvimento das culturas e excesso de umidade durante o período de colheita afetam significativamente a produtividade, elevam os custos de produção e exigem tomadas de decisão rápidas por parte dos agricultores. Essa instabilidade climática já começou a se refletir concretamente na safra atual do ciclo 2025/2026.
Atrasos no plantio e riscos ampliados
No início deste ciclo agrícola, chuvas irregulares atrasaram consideravelmente o plantio da soja em diversas regiões do Tocantins. Relatos indicam que muitos produtores só conseguiram realizar a semeadura até 20 dias após a janela ideal. Esse atraso compromete seriamente o calendário agrícola e acende um alerta vermelho para a segunda safra, uma vez que culturas como milho, gergelim e feijão dependem diretamente do momento em que a soja é colhida. Quanto mais tardio for o plantio, maior será a exposição aos riscos climáticos, como estiagens no final do ciclo ou excesso de calor, reduzindo drasticamente o potencial produtivo.
Reflexos urbanos e cadeia alimentar
Os impactos dessa instabilidade climática não se restringem aos limites das propriedades rurais. Quando o clima compromete a produção agrícola, os reflexos chegam rapidamente às cidades, manifestando-se através de:
- Menor oferta de alimentos nos mercados
- Aumento generalizado dos preços
- Instabilidade no abastecimento regular
Grãos fundamentais como soja e milho influenciam diretamente toda a cadeia alimentar brasileira, desde o óleo de cozinha até carnes, ovos, leite e seus derivados. Qualquer quebra ou atraso significativo na safra tende a pressionar os custos ao longo de toda essa complexa cadeia produtiva.
Visão de especialistas e lideranças
Caroline Barcellos, presidente da Aprosoja Tocantins, avalia que o clima deixou de ser um assunto exclusivo do produtor rural. "O produtor convive diariamente com o risco climático, mas os efeitos não ficam confinados à lavoura. Quando a chuva atrasa, falta ou vem em excesso, isso impacta diretamente a produção, eleva os custos e, posteriormente, influencia o preço dos alimentos. Por isso, discutir clima no campo significa discutir o que chegará à mesa das famílias nas cidades", afirmou a líder setorial.
O biólogo e palestrante Richard Rasmussen, que participou da Abertura Nacional da Colheita da Soja 2025/2026, destacou a dependência direta dos agricultores em relação às condições climáticas. "O produtor rural é, em certa medida, sócio do clima. Toda a produção está intrinsecamente vinculada à chuva e à seca. Qualquer descompasso interfere diretamente nos resultados finais. Existe uma mudança climática em curso, isso é inegável, e ela se tornou um dos maiores desafios contemporâneos para o produtor, pois aquela previsibilidade tradicional de plantar em um período e colher em outro já não existe mais", comentou o especialista.
Adaptação e estratégias de enfrentamento
Diante desse cenário desafiador, os produtores rurais têm buscado ativamente estratégias para se adaptar às novas realidades climáticas, investindo em:
- Manejo aprimorado do solo
- Práticas conservacionistas
- Cultivares mais resistentes às intempéries
- Planejamento climático mais sofisticado
Apesar desses esforços, os eventos climáticos extremos demonstram claramente que o fator climático passou a ser central não apenas para o setor agrícola, mas para toda a sociedade brasileira. No final das contas, a chuva que falta ou que vem em excesso ajuda a explicar concretamente por que determinados alimentos tornam-se mais caros ou escassos nos mercados. O que ocorre nas lavouras do Tocantins influencia diretamente o cotidiano urbano, evidenciando que o clima no campo também define o dia a dia de quem vive nas cidades.