China flexibiliza regras sanitárias para soja brasileira após crise de devolução de navios
As autoridades da China aceitaram flexibilizar as regras em relação à presença de ervas daninhas em carregamentos de soja importados do Brasil, conforme documento da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) do Ministério da Agricultura publicado nesta sexta-feira (20). A medida ocorre após o país asiático devolver cerca de 20 navios brasileiros carregados com soja nos últimos dias, por conterem plantas daninhas proibidas em seu território.
Negociação bilateral resulta em mudança de critério
No documento divulgado no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do governo federal, a SDA detalha que, em reunião com as autoridades chinesas, o governo brasileiro explicou "que não é possível atestar a ausência absoluta de sementes de plantas daninhas em soja, dado as características de produção". Diante dessa realidade técnica, as autoridades chinesas entenderam e aceitaram que não será adotado o critério de tolerância zero nas cargas que saem do Brasil.
Com base nesse entendimento, o governo brasileiro determinou a certificação de navios mesmo quando houver presença de plantas daninhas apontada em laudos laboratoriais. No entanto, ainda não há um limite numérico oficial definido para a tolerância de ervas daninhas. Segundo o documento, o percentual aceitável será discutido futuramente em negociações bilaterais entre representantes dos dois países.
Crise recente e medidas imediatas
A flexibilização ocorre em meio a uma crise recente nas exportações de soja para a China, principal destino do produto brasileiro, responsável por cerca de 80% das exportações. Além das devoluções de navios, a Cargill – uma das maiores exportadoras de grãos – cancelou embarques para o parceiro asiático no dia 12 deste mês.
Diante da situação, representantes do Ministério da Agricultura devem viajar à China na próxima semana para tratar do tema. Na terça-feira (17), o ministro Carlos Fávaro afirmou em coletiva de imprensa que a qualidade da soja brasileira "é inquestionável", mas reconheceu que a preocupação dos chineses é legítima. Ele anunciou que vai propor à China a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio de soja.
Contexto histórico e impacto nas exportações
Raphael Bulascoschi, analista do mercado de soja da StoneX Brasil, explica que o problema não é novo: "O problema começou no final do ano passado, quando o GACC, órgão responsável pela fiscalização na China, informou ao governo brasileiro que carregamentos estavam chegando com excesso de sementes proibidas e materiais estranhos". Recentemente, a China voltou a cobrar o Ministério da Agricultura de forma mais dura, o que levou o governo a adotar uma postura mais rigorosa na emissão de certificados fitossanitários.
Analistas da Hedgepoint Global Markets avaliam que o caso é pontual e não deve afetar o volume de soja exportado para a China. Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado, destaca: "A fila de navios nos portos brasileiros continua forte, com cerca de 17 milhões de toneladas de soja, sendo 10 milhões destinadas à China". Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado, complementa que os 20 navios devolvidos representam entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas, volume considerado pequeno diante das 112 milhões de toneladas que o Brasil deve exportar no total este ano.
Próximos passos e avaliação de risco
Até que um limite numérico seja estabelecido nas negociações bilaterais, a avaliação das cargas seguirá baseada em análise de risco e medidas de mitigação, de acordo com o destino do produto. O governo brasileiro mantém o compromisso de garantir a qualidade das exportações enquanto busca soluções técnicas viáveis para atender às exigências sanitárias internacionais.



