China rejeita cargas de soja brasileira por contaminação com ervas daninhas
Nos últimos dias, a China devolveu diversas cargas de soja enviadas pelo Brasil por descumprirem regras sanitárias do país asiático. A situação ganhou destaque após a Cargill, uma das maiores exportadoras de grãos do mundo, cancelar embarques para a China no dia 12 deste mês. A China é o principal destino da soja brasileira, respondendo por aproximadamente 70% das exportações do produto.
Problema sanitário não é novo, mas se intensificou
Cerca de 20 navios brasileiros foram devolvidos pela China por apresentarem grãos de soja misturados a ervas daninhas proibidas no território chinês. Diante da crise, representantes do Ministério da Agricultura devem viajar à China na próxima semana para tratar do tema diretamente com as autoridades locais.
Raphael Bulascoschi, analista do mercado de soja da StoneX Brasil, explica que a situação não é nova. "O problema começou no final do ano passado, quando o GACC, órgão responsável pela fiscalização na China, informou ao governo brasileiro que carregamentos estavam chegando com excesso de sementes proibidas e materiais estranhos", afirma Bulascoschi. "Recentemente, a China voltou a cobrar o Ministério da Agricultura de forma mais dura, o que levou o governo a adotar uma 'postura de tolerância zero' para evitar tensões diplomáticas", acrescenta o especialista.
Medidas rigorosas de inspeção e certificação
Na prática, o Ministério da Agricultura passou a realizar inspeções mais frequentes e deixou de emitir certificados fitossanitários para carregamentos que não cumprem as exigências chinesas. "Sem esse certificado, as empresas ficam impedidas de entregar a carga na China e de receber o pagamento", detalha Bulascoschi. Foi nesse contexto que a Cargill decidiu interromper temporariamente as exportações para o mercado chinês.
O Ministério da Agricultura informou que se reuniu com as principais tradings e associações do país e que, juntos, atuam para "superar eventuais dificuldades" e "assegurar os elevados padrões de qualidade dos produtos brasileiros". As entidades representativas do setor, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), publicaram uma nota conjunta afirmando que acompanham "de forma atenta" os "recentes desdobramentos" das exportações de soja.
Impacto limitado nas exportações totais
Analistas da Hedgepoint Global Markets avaliam que o caso é pontual e não deve afetar significativamente o volume de soja exportado para a China. Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado, destaca que "a fila de navios nos portos brasileiros continua forte, com cerca de 17 milhões de toneladas de soja, sendo 10 milhões destinadas à China". "Até agora, não há registro de atrasos relevantes na saída de navios, o que indica que se trata de ajustes pontuais no processo de inspeção das cargas", complementa.
Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos e Oleaginosas da Hedgepoint, ressalta que os 20 navios com cargas rejeitadas representam entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas. "É pouco diante das 112 milhões de toneladas que o Brasil deve exportar no total no ano", conclui, indicando que o impacto deve ser contido dentro do panorama geral das exportações brasileiras de soja.



