Produtores de cacau do Pará buscam inovação para enfrentar queda histórica nos preços
Cacau do Pará: produtores buscam inovação contra queda de preços

Crise no cacau paraense: produtores enfrentam queda de 70% nos preços das amêndoas

Na região de Altamira, sudoeste do Pará, agricultores cacaueiros da Transamazônica e do Xingu se reúnem em meio a um cenário de forte instabilidade financeira. O custo médio para produzir um quilo de amêndoas secas de cacau chega a aproximadamente R$ 18 a R$ 20, enquanto o preço de venda atual gira em torno de apenas R$ 12 por quilo. Essa valorização representa uma queda drástica em comparação com anos anteriores, quando o produto chegou a ser negociado por quase R$ 70/kg em períodos de alta demanda.

Transamazônica: coração da produção nacional

A região da Transamazônica é responsável por cerca de 85% da produção paraense de cacau e representa aproximadamente 38% da produção nacional, consolidando o Pará como o principal celeiro do fruto no Brasil. Com o pico da colheita previsto para maio, muitos produtores já planejam ingressar na nova safra com preocupação significativa sobre a lucratividade e a capacidade de cobrir os custos de produção.

Inovação como resposta à crise

Em meio a este cenário desafiador, o 2º Cacau Tech, evento realizado na sede dos produtores rurais de Altamira, reúne agricultores de sete municípios para discutir tecnologias, gestão de lavouras e estratégias para reduzir prejuízos. Entre os temas em pauta estão:

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  • Adoção de práticas produtivas mais eficientes
  • Controle avançado de pragas e doenças
  • Iniciativas para qualificar a amêndoa e melhorar a rentabilidade
  • Estratégias de verticalização da produção

Alguns produtores já buscam caminhos alternativos através da verticalização, como a produção de chocolate artesanal. No município de Brasil Novo, a produtora Verônica Preuss investe na fabricação de chocolate há cinco anos como forma de agregar valor ao fruto e obter preço melhor nas amêndoas. Em Vitória do Xingu, Tatiana, filha de agricultores, aproveita o evento para buscar conhecimento e estruturar a produção de chocolate artesanal na propriedade da família.

Cacaupará: sistema pioneiro de rastreabilidade estadual

Enquanto produtores debatem soluções em Altamira, o governo do Pará anuncia o lançamento do Cacaupará, primeiro sistema estadual integrado de rastreabilidade do cacau no Brasil. Desenvolvido com recursos do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Estado do Pará (Funcacau), o sistema acompanha toda a cadeia produtiva, desde o cadastro da propriedade rural até a entrega do produto à indústria.

Funcionalidades do sistema

A plataforma, já disponível para acesso na página da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), registra digitalmente cada etapa da produção com:

  1. Cadastro georreferenciado de propriedades
  2. Validação ambiental automática via Cadastro Ambiental Rural (CAR)
  3. Controle preciso de colheita e destinação das amêndoas
  4. Geração de QR Code por lote para rastreamento completo

O secretário da Sedap, Giovanni Queiroz, afirmou que a ferramenta permite ter um "raio‑X" da cacauicultura paraense, com dados detalhados sobre área cultivada, produtividade e acesso a mercados mais exigentes.

Adequação às exigências internacionais

O sistema foi especialmente desenvolvido para atender regulamentações internacionais, como a nova EUDR (European Union Deforestation Regulation) da União Europeia, que exige comprovação de que produtos como cacau, soja, café e madeira não sejam provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Para o governo paraense, esta medida reforça a credibilidade do "cacau amazônico" em mercados que valorizam origem limpa, rastreável e sustentável, abrindo espaço para melhores preços e certificações.

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Impacto para produtores e cooperativas

O governo estadual estima que o Pará tenha cerca de 34 mil produtores de cacau, com a maioria concentrada na Transamazônica. A meta é cadastrar 100% desse universo no Cacaupará, através de parcerias com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Pará (Faepa) e estruturas de assistência técnica e gerencial.

Para cooperativas como a Cooperativa de Produção Orgânica na Transamazônica e Xingu (Cepotx), de Altamira, a nova plataforma reduz custos e facilita significativamente a organização das informações. O presidente Jader Santos afirma que, anteriormente, o acesso a sistemas de rastreabilidade de qualidade era limitado pela alta cobrança de empresas privadas, algo que agora se torna mais acessível com o apoio do Estado.

Representantes de organizações como a Fundação Solidaridad também veem no Cacaupará um passo importante para construir uma base de dados mais sólida sobre a produção cacaueira no Pará, proporcionando maior transparência nas relações comerciais e mais segurança para produtores que buscam mercados justos e sustentáveis.

Futuro da cacauicultura paraense

O Pará se consolida hoje como o maior produtor de cacau do Brasil e figura entre os principais polos mundiais em termos de produtividade, com destaque especial para o cultivo em sistemas agroflorestais na Amazônia. A combinação de iniciativas como o Cacau Tech e o sistema Cacaupará busca fortalecer toda a cadeia produtiva em um momento de volatilidade de preços, apoiando:

  • Adoção de tecnologia de ponta
  • Gestão mais eficiente das propriedades
  • Maior acesso a mercados internacionais exigentes
  • Valorização do cacau amazônico sustentável

O acesso ao sistema Cacaupará pode ser realizado através do site oficial da Sedap, onde cooperativas, produtores e indústrias interessadas podem se cadastrar e acompanhar informações em tempo real sobre a produção cacaueira no estado, marcando um novo capítulo na história do cacau paraense.