Como a bicicleta libertou mulheres indianas e impulsionou a alfabetização
Bicicleta libertou mulheres indianas e impulsionou alfabetização

Na década de 1990, uma iniciativa inovadora na Índia combinou alfabetização com mobilidade: ensinar mulheres a andar de bicicleta. O programa, parte da Missão Nacional de Alfabetização, transformou a vida de milhares de mulheres em Pudukkottai, no sul do país.

O contexto da missão

Em 1988, a Índia lançou a Missão Nacional pela Alfabetização, visando promover leitura, matemática e direitos fundamentais. No distrito de Pudukkottai, o programa ficou conhecido como "Movimento da Iluminação". Na época, menos da metade das mulheres sabiam ler e escrever, totalizando cerca de 270 mil não alfabetizadas.

"Durante as discussões, ficou evidente que as mulheres seriam as principais beneficiárias", relembra Kannammal, coordenador do movimento. Para ensinar tantas mulheres, seriam necessários 30 mil voluntários, o que gerou um desafio logístico que levou à criação do programa das bicicletas.

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A ideia revolucionária

A servidora civil Sheela Rani Chunkath, então coletora do distrito, percebeu que muitas famílias esperavam professoras mulheres, mas poucas tinham meio de transporte. "Naquela época, as mulheres não tinham acesso a bicicletas ou motocicletas. Elas não conseguiam viajar de forma independente", conta Chunkath. "As bicicletas deram às mulheres uma sensação de liberdade e autoconfiança."

"Algumas autoridades eram contra o recrutamento de mulheres voluntárias", diz Kannammal. "Eles diziam que as mulheres não poderiam ir às aldeias remotas, mas a coletora rejeitou seus argumentos." Quando as mulheres começaram a viajar sozinhas, perceberam que podiam superar todas as barreiras impostas pelos homens.

Histórias de superação

Jayachithra, hoje diretora de uma escola estadual, lembra: "Eu vivia como uma escrava. Meu pai não me permitia nem abrir as janelas." Após completar 10 anos, sua família queria que ela aprendesse a costurar ou datilografar, empregos considerados seguros para mulheres. Mas ela tinha nota 99 em matemática e se sentia reprimida. Sua mãe penhorou o colar de casamento para pagar seus estudos.

Selecionada para ensinar mulheres muçulmanas em uma aldeia vizinha, Jayachithra aprendeu a andar de bicicleta. "Comecei a usar longas saias e meios-sáris. Não havia bicicletas femininas, então aprendi em uma masculina", conta. Ela caiu algumas vezes, mas a recompensa valeu a pena. "Minha vida mudou drasticamente. Eu me sentia como uma borboleta." Inicialmente, seu pai não aprovava, mas depois comprou uma bicicleta para ela. "Foi o melhor dia da minha vida."

Vasantha, quase 60 anos, vinha de uma família pobre dalit e era analfabeta. Trabalhava quebrando pedras em uma pedreira. "Pessoas do movimento de alfabetização nos disseram que poderíamos ganhar bicicletas se aprendêssemos a andar", recorda. Tímida, mas contagiada pelo entusiasmo, ela aprendeu a pedalar. Depois de alfabetizada, associou-se a outras três mulheres, alugaram uma pedreira e começaram seu próprio negócio. Hoje, ajuda a neta que quer ser médica.

Legado duradouro

Hoje, é comum ver mulheres de bicicleta em Pudukkottai. Muitas abriram pequenos negócios ou trocaram trabalho sazonal na agricultura por empregos formais. A alfabetização as ajudou a perceber que recebiam salários menores e a reivindicar aumentos. A bicicleta as libertou da dependência de parentes homens, numa época em que as aldeias careciam de estradas e transporte público.

Em 11 de agosto de 1992, Pudukkottai foi declarado livre do analfabetismo. Jayachithra, que hoje anda de lambreta, resume: "A bicicleta trouxe confiança para pessoas como eu. Ela me fez perceber que não preciso depender de ninguém."

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