Agronegócio brasileiro estabelece plano bilionário para blindar exportações em cenário de guerra comercial
O agronegócio brasileiro alcançou um marco histórico em 2025, superando a marca de US$ 169 bilhões em exportações, com crescimento de 3% em relação ao ano anterior. Este desempenho impressionante, no entanto, esconde uma estratégia ainda mais relevante: diante da instabilidade geopolítica global e do surgimento de novas barreiras comerciais, o setor está transformando sua escala em capacidade de resistência a choques externos.
Diversificação como escudo protetor
A mensagem central do setor é clara: reduzir a dependência de poucos compradores, especialmente da China, que responde por um terço das exportações do agro brasileiro. "Qualquer país que produza proteína animal é um potencial comprador do agro brasileiro", afirma o economista Felippe Serigati, pesquisador do centro de estudos FGV Agro.
O desempenho recorde foi sustentado pelo crescimento nos volumes embarcados de soja em grãos, milho e proteína animal. Em 2025, o Brasil consolidou-se como líder mundial na produção de carne bovina, com 12,4 milhões de toneladas, mantendo também o maior volume exportado - 4 milhões de toneladas que renderam quase US$ 18 bilhões em vendas.
Ampliação estratégica de mercados
Embora o complexo soja continue sendo o carro-chefe, a estratégia passa pela ampliação de destinos e usos. Os combustíveis renováveis ajudam a explicar por que o milho ganha força na pauta exportadora. "O Brasil era importador desse produto há trinta anos e hoje é líder exportador", ressalta Serigati.
As frutas ilustram bem essa tendência de diversificação. Pelo terceiro ano consecutivo, os produtores brasileiros bateram recorde: US$ 1,45 bilhão em exportações, com alta de 12% e crescimento de quase 20% em volume, lideradas por mangas, melancias, uvas e limões.
Acordos comerciais e desafios persistentes
O acordo recentemente firmado entre Mercosul e União Europeia abre espaço para ganhos de médio prazo. "O acordo é positivo, em especial para o agronegócio brasileiro", afirma Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global. Negociado por mais de 25 anos, o tratado prevê cotas para produtos como carne, etanol, arroz e açúcar e a eliminação de tarifas em até 91%.
No entanto, a concentração em um cliente grande demais para ser substituído rapidamente permanece como desafio. A China comprou perto de metade da carne exportada pelo Brasil no ano passado e estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas - o restante pagará sobretaxa de 55%.
Iniciativas concretas de diversificação
Esse aprendizado se traduz em ações práticas. Em 2025, começaram as vendas de proteína animal para o Vietnã. As Filipinas consolidaram-se como principal destino de carne suína brasileira, após ampliar as compras em 54,5% e superar o volume remetido à China. O governo federal negocia autorização para vender carne bovina e produtos à base de gordura animal para o Japão.
"A agricultura brasileira é dinâmica, resiliente e de escala mundial", afirma Dante Pozzi, diretor de commodities da Amaggi. "Nos últimos dois anos, fortaleceu a diversificação de seus destinos, tendo como parceiros principais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, além de apresentar forte crescimento em mercados emergentes na África e no Oriente Médio."
Gargalos e perspectivas futuras
A diversificação de vendas, porém, não basta sem uma base de competitividade sólida. As importações também bateram recorde em 2025, e o saldo da balança comercial chegou a cair em relação a 2024, apesar do desempenho exportador. "Nossa dependência da compra de insumos de países em situação delicada no cenário internacional, como a Rússia, representa um risco", alerta Gilio.
Para Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a expansão da demanda global por alimentos, energia renovável e soluções sustentáveis abre espaço para agregação de valor e avanço da bioeconomia. Mercados como Paquistão, Filipinas, Bangladesh, Reino Unido, México, Japão e Chile ganham relevância crescente.
Em um comércio global onde condições mudam rapidamente e barreiras surgem sem aviso, diversificar tornou-se proteção essencial - e o setor trabalha intensamente para depender menos de uma única âncora comercial.



