A Agrishow 2026, maior feira de tecnologia agrícola do Brasil, encerrou na sexta-feira, 1, em Ribeirão Preto (SP), confirmando seu papel como termômetro do agronegócio. O evento bateu recorde de público, com 127 mil visitantes, mas entregou um sinal claro de freio nos negócios. As intenções de compra somaram R$ 11,4 bilhões, uma queda de 22% em relação ao ano anterior — que chega a cerca de 25% em termos reais, segundo o colunista de VEJA Gustavo Junqueira.
Esta é a primeira retração após 11 anos de crescimento contínuo, em um momento em que o setor de máquinas agrícolas já vinha de uma queda relevante nas vendas no início do ano. A explicação passa menos por falta de interesse e mais por cautela. Como resumiu Junqueira, “o produtor foi lá, olhou e voltou sem assinar os pedidos de compra”.
Cenário econômico desfavorável
O ambiente econômico não ajuda: com a Taxa Selic em 15%, financiar máquinas tornou-se um custo difícil de justificar. Ao mesmo tempo, as margens estão pressionadas — soja mais apertada, cana abaixo do ponto de equilíbrio — e o crédito segue cercado de incertezas, com anúncios ainda pouco claros e dinheiro que, na prática, não chegou na ponta.
Transformações no setor
No pano de fundo, o setor vive algo mais profundo. A tecnologia avança — com máquinas inteligentes, inteligência artificial e novas fontes de energia — mas os negócios não acompanham no mesmo ritmo. Para Junqueira, há uma “seleção natural” em curso: produtores mais estruturados tendem a consolidar espaço, enquanto aqueles mais alavancados, que cresceram no ciclo de juros baixos e commodities em alta, enfrentam um ajuste duro. O desafio, como ele define, é inédito: margens comprimidas, juros elevados e um cenário climático imprevisível ao mesmo tempo.



