Agricultora de Mogi das Cruzes comanda sozinha propriedade rural e supera desafios da jornada múltipla
A agricultora Fernanda Vieira, de 32 anos, administra sozinha uma propriedade rural de 7,5 mil metros quadrados em Mogi das Cruzes, município que integra o Cinturão Verde do Estado de São Paulo. Após anos atuando na produção rural da família, ela decidiu assumir o comando da própria chácara e descobriu que o maior obstáculo não era o manejo de máquinas pesadas, mas sim a complexa jornada de conciliação entre trabalho, casa e maternidade.
Do aprendizado familiar à empreitada solo
"Não foi fácil ir sozinha, mas como eu já tinha noção de como funciona a produção rural, pegar no pesado não foi o mais difícil", relata Fernanda. Quando iniciou sua produção própria, aos 20 anos, seu filho Bruno Miguel tinha apenas dois anos de idade. Foi necessário, então, reorganizar completamente a rotina para equilibrar as demandas da lavoura, do lar e dos cuidados maternos.
"Era muito corrido. Conciliar casa, filho e trabalho foi a parte mais complicada, conseguir colocar tudo em ordem", relembra a agricultora. No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, histórias como a de Fernanda ilustram uma realidade comum no trabalho feminino: o desafio de administrar jornadas múltiplas que frequentemente não recebem o devido reconhecimento.
Da enfermagem ao cultivo da terra
Apesar de ter nascido em uma família de produtores rurais, Fernanda chegou a cursar enfermagem antes de encontrar sua verdadeira vocação. "Eu gostava, mas no meio do caminho vi que não era pra mim, não era o que eu queria de verdade. Foi quando 'me acendeu uma luz' e eu comecei a trabalhar sozinha", conta.
Atualmente, ela é responsável por todas as etapas da produção na chácara:
- Prepara o canteiro com trator
- Realiza o plantio
- Faz a colheita
- Embalagem dos produtos
- Venda e atendimento aos clientes
No local, ela cultiva rúcula, acelga, coentro, couve, cebolinha e alface. "É muita coisa no trabalho e eu ainda preciso de tempo para cuidar do meu filho e de mim. Preciso de tempo para fazer tudo o que uma mulher faz, e têm dias que as horas não são suficientes", desabafa.
Superando estereótipos e inspirando outras mulheres
Para trabalhar no campo, Fernanda sempre buscou transformar desafios em oportunidades de inspiração. "Sempre enxerguei que outras mulheres poderiam ver que dou conta e pensar que elas também podem. Eu já cresci nesse meio, sei que é dominado por homens e muitas vezes quando chega alguém na chácara para vender alguma coisa, por exemplo, já chegam procurando pelo dono da propriedade".
O estabelecimento, porém, nunca teve um "dono" no sentido tradicional - sempre pertenceu a Fernanda. Ela não conta com funcionários e nunca trabalhou com homens, conduzindo todas as atividades de forma independente.
"Tem gente que fala que trabalho mais que muito homem. Eu realmente trabalho muito e acho que isso acontece pela capacidade que nós, mulheres, temos de enxergar que vamos conseguir. Não existe outra possibilidade", finaliza com determinação a agricultora que transformou seu pedaço de terra em um exemplo de resiliência e autonomia feminina no agronegócio.



