Falências de agricultores nos EUA disparam 46% em 2025 sob pressão do tarifaço de Trump
A crise no campo americano atinge níveis alarmantes em 2025, com os pedidos de falência de agricultores familiares registrando um aumento expressivo de 46% em comparação com o ano anterior. Os dados divulgados pela American Farm Bureau Federation (AFBF) revelam um cenário de extrema dificuldade financeira que assola o setor agrícola dos Estados Unidos.
Último recurso para sobrevivência
Ao todo, foram registrados 315 pedidos de falência no ano passado, embora especialistas alertem que o número real possa ser ainda maior. Isso porque apenas agricultores e pescadores familiares que se enquadram nas regras específicas do "Capítulo 12" podem solicitar este tipo de recuperação judicial, que exige comprovação de que a maior parte das dívidas está diretamente ligada à atividade rural.
"O pedido é visto como um último recurso para que o produtor consiga continuar trabalhando", explica a análise da AFBF, que destaca a falta de perspectivas de melhora no curto prazo para agricultores e pecuaristas americanos.
Regiões mais afetadas e causas estruturais
As regiões do Meio-Oeste e Sudeste concentram os piores números, com crescimentos de 70% e 69% nos pedidos de falência, respectivamente. Segundo a economista Samantha Ayoub da AFBF, "perdas profundas em culturas comuns dessas regiões se acumularam após anos de queda nas receitas e alta nos custos".
Os fatores que pressionam os agricultores americanos são múltiplos e interligados:
- Baixos preços das safras combinados com custos elevados de mão de obra e insumos
- Queda nas exportações de produtos como soja devido a disputas comerciais internacionais
- Retaliações comerciais de outros países, especialmente da China, em resposta ao tarifaço implementado
- Perdas acumuladas que variam entre US$35 bilhões e US$44 bilhões para as nove principais commodities agrícolas
Crise se estende à pecuária
O setor pecuário também enfrenta sérias dificuldades. O rebanho bovino dos EUA diminuiu para seu menor tamanho desde 1951, segundo dados do Departamento de Agricultura (USDA). A seca persistente nos estados do oeste afetou pastagens e aumentou os custos de alimentação, forçando os pecuaristas a enviar mais animais para abate precocemente.
"O rebanho de vacas tem diminuído continuamente desde 2019", confirma o USDA, acrescentando que a suspensão das importações de gado mexicano desde maio devido a preocupações sanitárias restringiu ainda mais o fornecimento.
Endividamento recorde e medidas paliativas
A situação financeira do setor agrícola americano continua se deteriorando. No quarto trimestre de 2025, os empréstimos para agricultores aumentaram 40% em comparação com o mesmo período de 2024. O USDA estima que a dívida total do setor subirá 5,2% em 2026, alcançando o recorde histórico de US$ 624,7 bilhões.
"Esse dinheiro está sendo usado principalmente para cobrir custos operacionais e não para investir no crescimento dos negócios", ressalta a AFBF sobre o endividamento crescente.
Em resposta à crise, o governo norte-americano anunciou em dezembro um pacote de auxílio de US$ 11 bilhões destinado a aliviar a situação dos agricultores, após pedidos específicos por apoio para compra de sementes e fertilizantes para o próximo plantio.
Entretanto, especialistas alertam que sem mudanças estruturais nas políticas comerciais e sem a resolução das disputas internacionais, a pressão financeira sobre os agricultores americanos deve continuar intensa nos próximos anos, mantendo o setor em situação de vulnerabilidade extrema.